dia 224 - o colecionador

foi colhendo ao longo do tempo
juntando
arrecadando
colecionando

um pouco de tudo
desde objetos a éteres difusos

foi tecendo um ninho dessas coisas
de mágoas e de sorrisos
de escuridão e de reflexos luminosos nas ínfimas gotas de um orvalho

ia pintando arabescos
ziguezagueando nesses padrões caleidoscópicos e viciantes
que se prolongam até doer a mão e os dedos ou a tinta acabar

ia segredando temas profanos
mergulhando até aos ossos de um crueza inescapável
para depois se elevar para outros assuntos
como a sede de uma língua num beijo húmido

e tudo isso
independentemente da ignorância do mundo
acontecia-lhe nas palmas das mãos

e um rumor crescia-lhe no âmago
como se nas entranhas estivesse alguma coisa
e fosse preciso uma navalhada para a sacar cá para fora
essa tal coisa e claro as vísceras e a bílis e sangue e a imundice

nem sempre cumpria o golpe
vezes havia que se deixava engravidar por esse lance
e ao fim de três luas e meia
a meio da noite
um parto de nada acontecia

era quase sempre assim
um grande alarido para depois ser mais do mesmo
um desprendimento do tamanho do mundo a esperar que a madrugada acabe

mas de tempos a tempos
desse aparecimento surgiam-lhe nas costas um par de asas sublimes
e um voo era-lhe inevitável

planava até ao horizonte deslizar para ainda mais longe
e numa elipse que dava a volta ao universo
regressava pelo lado oposto
com os olhos cheios de mais mundo e a alma alucinada de beleza

tudo isto era verdade
de uma forma ou de outra
ninguém sabe ao certo o que lhe corria nas veias quando o encontraram

embora ele tenha dito de viva voz

vocês pensam que me encontraram
mas para se encontrar alguém
há que perdê-lo antes

ora eu
meus amigos

eu nunca me perco


"Anjo Vermelho" (1902), obra de Karl Mediz, Museu Leopold, Viena, Áustria, abril de 2022

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