depois de ouvir o que ouviu
não restava outra opção que não fosse engolir em seco
como se de repente o corpo precisasse de recuperar o elo a este lado da existência
sob pena de fintar as leis da física e seguir a curvatura do tecido do espaço-tempo independentemente de ter o chão por baixo
contaram-lhe do homem que saiu para o jardim nas traseiras da casa
vestia um casaco onde num bolso estava uma carta para o filho e outra para um neto que nem sequer existia
na árvore pendurou-se pelo pescoço e ficou em pêndulo até um vizinho notar no dia seguinte
o que as cartas diziam não sabia
mas imaginou que dissessem coisas como
por baixo da pele
somos todos iguais
e por isso
há que abandonar o que se cria
para que haja mais lugar para se criar melhor
provavelmente
esse homem tinha sido daqueles que pintava quadros que não cabiam em casa
quadros cujas paredes para os susterem ainda não foram inventadas
e por isso
uma a uma
tela a tela
rasgava-as em pedaços antes de as terminar
ou seria poeta
e a cada três quatro versos
quando acendia um cigarro
aproveitava a chama do fósforo para lhes chegar o fogo
e assim ia olhando as labaredas engolirem as palavras e o papel onde elas falavam
até que ao fim do dia tinha os tornozelos cobertos por cinza e poalha negras
ou era escultor
moldando materiais que ia colher de madrugada pelas ruas da cidade
torcendo-os e contorcendo-os até os soldar em contornos abstratos
para depois
quando a manhã inundasse de luz o atelier
pudesse pegar na marreta e rebentar com as obras
semeando estrondos até os braços fraquejarem e o fôlego evadir-se
tudo isto eram suposições
fruto dos relâmpagos criativos que surtiam quando lhe chegavam histórias dessas
desde sempre que a mente viajava ao sabor de um vento incontrolável mal lhe contavam uma tragédia
não tinha como segurar esse galope selvagem
passavam-se dias até conseguir acalmar os devaneios
e muitas vezes
no fim
já pouco sobrava da história inicial
como se na loucura da síncope conjetural
a alma cobrisse os vestígios do trauma primário sob um emaranhado de fábulas e enigmas
mas apesar de tudo isso
quando assenta o silêncio
ao fundo do jardim a árvore espreita
e por momentos um vulto balança
suspenso
num vai
e vem
e vai
e vem
até que vai e não volta mais
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