dia 219 - porquê

dizia-se alquimista
derretia palavras num pequeno pote de ferro fundido
fazia-o como ato de rebeldia e à revelia dos mestres mais antigos

preparava o fogo na pequena clareira da floresta
por entre umas pedras que sabia serem mágicas
e esperava encontrar nessa sopa de lava um qualquer sinal da primeira palavra jamais dita

mas o líquido flamejante acabava por esfriar e das palavras lá metidas sobrava um pedaço que não era nem luz nem sombra

procurou nas cavernas dos primeiros homens
o eco do que fora dito há milénios
esgravatou as paredes e o chão
remeteu-se a um silêncio denso a ver se ainda reverberavam de alguma forma
mas em vão
sobre o silêncio caía ainda mais mudez

tentou poções de ervas e venenos
ingeriu-as devagar ao nascer do sol
mas disso só lhe sobravam febres e vómitos e cólicas

foi ao cimo da colina até à fresta de onde brotava a nascente do rio
esperou que alguma coisa lhe fosse dita por lá
mas a água límpida passava sem parar por entre granito e musgo verdejante

visitou as mulheres que uns chamavam de bruxas e outros de feiticeiras
recolheu as caixas seladas onde
diziam elas
segredos haviam sido proferidos
mas quando as abriu nem um sopro de lá se escapou

tentou sonhar essa palavra original
de quando um grunhido se articulou pela primeira vez
qual teria sido
uma interjeição de dor de amor de fome de tédio

nunca o soube

quando os mais velhos o encontraram desesperado e perdido
recolheram-no para as suas tendas
curaram-lhe as feridas mas não a mente

ele voltava a fugir para o mundo
obcecado por essa busca
como se precisasse de ouvir a tal palavra para poder sobreviver

mas a vida foi levando-o em frente
indiferente à loucura e a essa cisma ontológica

ainda assim
face à teimosia da existência
também ele nunca abandonou a própria mania

e até ao último fôlego
foi ver o esgrimar entre uma obstinação e um desapego

ele ardeu até não sobrar cinza
a vida seguiu até ser melancólica

a primeira palavra proferida
embora não se saiba qual foi
provavelmente terá sido dita em jeito de pergunta

quem sabe se não foi um

porquê


Nacional 246 perto de Marvão, Parque Natural da Serra de São Mamede, agosto de 2020

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