dia 234 - naufrágio celeste

tentou
ao longo do tempo
descodificar certos enigmas

o intento primeiro e favorito foi o das nuvens

avaliou as rotas que elas tomavam
as órbitas veladas dessas fumaças perdidas no firmamento

chegou a conclusões que não o eram
e assim
entendeu que uma nuvem não era um enigma que se desvendasse

havia pois
que convocar outros desígnios
procurar uma teimosia que queimasse o excesso de silêncio que lhe ia na alma

mas as mãos estavam vazias
a mente não encontrava porto onde atracar
e ao erguer o olhar
elas ali estavam
as fumaças brancas à deriva pelo alto

não era uma decisão fácil abandonar essa evidência

mas tentou uma vez e outra e outra
e em vão
porque o mesmo deserto desaguava-lhe sempre trazendo nada

não tinha por onde escapar

de um lado a cifra do céu nebulado
do outro o despovoado de alternativas a calar-se de vez

assim ficou
perdido entre duas sentenças
como os espiões que eram apanhados e condenados à morte

e entre a cápsula de cianeto escondida no molar e a corda que os esperava
tinham apenas uma janela de tempo para chegar a uma escolha que ia dar no mesmo

o que ele acabou por escolher não se soube
mas as nuvens continuaram o naufrágio celeste

ainda hoje por lá se enforcam
até que se fundem umas nas outras
ou se esfumam de solidão


Nuvem sobre o Porto, agosto de 2026

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