dia 233 - até esgotar o destino

a luz que lhe tocou no rosto
curvou pelo corpo dela antes de lhe chegar

veio com parte do contorno e com um resto leve do olhar

o que ele via
era ela em contraluz
um meio perfil de penumbra a cobrir o espetro luminoso que radiava pela tarde

havia por trás dessa claridade
ou à frente
diga-se
antes da vereda percorrida
uma janela e todo um mar nesse enquadramento
e que reluzia também mil sóis fúlgidos no pico de mil ondas finamente dobradas

isto pelo menos
pensava ele que houvesse

porque na verdade
nunca se sabe muito bem o que poderá estar
onde supomos que as coisas estejam

há um permanente jogo de fé na vida que se leva
um sem-fim de suspeita conjetura crença e outros entendimentos
porque nunca ninguém sabe tudo
e do que se sabe nunca é certo que seja válido

a luz chegou-lhe então
brindada de sombra e do olhar dela
embebendo-lhe a fronte num afago morno

e os olhos
cegados por momentos
iam discernindo a silhueta revelada

tinha ganho esse gosto em olhar estátuas com o sol por detrás das mesmas
como se nesse ato de olhar
fosse ele mesmo também esculpindo
moldando os mármores ou os bronzes a golpes de vista e a lances de entrega

estas cismas não sabia de onde vinham
mas é sempre assim nos devaneios
surgem sem anúncio e sem pais nem origem

se calhar
quem sabe
existem já nos instantes onde estão
e basta que calhe de por lá passarmos para que fulminem

será isso porventura
sermos o veículo do inevitável
o instrumento de tudo o que é fatal

cabe-nos ir por aí
e por ali
e por acolá
até esgotarmos o destino
para que faísquem todas as possibilidades de beleza
para que não se perca o vislumbre do efémero que perdura para sempre

a luz acabou por cair
e o jogo era agora de breus
de ocultações e silêncios

a madrugada abriu-se para lá dela mesma

o fim consumia-se
quedava mudo
pronto a renascer quando a manhã regressasse


"Torso", de Francisco Franco, jardins à entrada do Museu José Malhoa, Caldas da Rainha, agosto 2026

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