dia 231 - homens postiços

no inventário constavam várias coisas
entre elas
algumas etéreas
outras concretas

nunca se chegou a descobrir como é que ele as carregou ao longo da vida
mas o que é certo
é que no mausoléu que invadimos
todas elas lá estavam

uma lista interminável de adágios
uma coroa real
um frasco com especiarias
um pedaço de nevoeiro
uma pasta de couro com apenas noite lá dentro
um rótulo de um vinho velho
um antigo amor num poema escrito à pressa

e tantas mais coisas que não há versos suficientes para as enumerar

havia tudo isso
menos o corpo

sabíamos que desaparecera sem deixar rastro
que o funeral fora simbólico
o próprio coveiro contou-nos que no dia se sentiu enganado

aliás
os relatos sobre os últimos dias antes de sumir
eram contraditórios em muita coisa
mas numa todos concordavam

desapareceu numa cidade cujas fachadas eram falsas

e isto explicava parte do mistério
como se também ele fosse só uma aparência

fora um disfarce ao longo dos tempo
uma máscara a esconder um rosto que ninguém chegou verdadeiramente a conhecer

quando decidimos investigar
a curiosidade partiu de um detalhe
as lágrimas de uma mulher solitária

e essa tristeza partilhada levou-nos até este lugar
à sepultura que os que julgavam conhecê-lo criaram em sua memória

mas ele terá sido alguém que não sabia que perguntas fazer
e por isso ocultou a identidade
foi-se camuflando pelos anos
colecionando uma infinidade de tralha  que ia levando com ele

terá sido um fingimento na esperança de sobreviver
e se calhar
um dia
apercebeu-se que esgotara o esconderijo
e assim
nessa cidade irreal
nessa urbe onde nada é o que parece ser
ele pôde desvanecer de vez

ou pelos telhados imaginários
ou pelos subterrâneos cujo labirinto não se resolve
ou pelas margens do rio boémio
ou pela silhueta de uma mulher de rua

o que se sabe é quase nada
e da lista interminável de coisas que dizem ter sido dele e que aqui recolheram
fica-se a saber ainda menos

que tipo de homem guarda um sonho num bolso de um casaco

só mesmo um homem postiço

nós assim concluímos
e assim nos desmascáramos também


Fachada em restauro da Église de la Madeleine, Paris, França, dezembro 2021

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