quem sabe se essa coisa fosse fundamental
como água quando a sede se agarra em desespero na garganta
e diariamente cruzava-se com esse apelo
cada um indo à sua vida
ela numa rotina apática
o rogo cego sem saber onde desaguar
há um desencontro naquilo que nos está destinado
porque só assim vale a pena não cumprirmos promessas
ou então cumpri-las
que também é uma forma de enlouquecer
todos os caminhos vão dar ao delírio
ele é inevitável
é o percurso que decide se ele se incendia de repente ou se se move silencioso como as areias movediças
ela gostava de se entregar ao silêncio
de meditar até à mudez
de resvalar numa quietude com o ritmo furtivo de certas plantas que medram de madrugada
escolhia horas certas para o fazer
preparava com antecedência o cenário
e só quando tudo parecia estar no lugar certo é que podia enfim ocultar-se
ao regressar
a voz voltava a ditar-lhe os fados possíveis
uma permanente chuva de presságios
de futuros alternativos
uma enumeração do concebível até ao limite do mundo deixar de ter segredos
e entre o silêncio e o vozear que a acometia
encontrou um não-lugar
como se prolongasse o momento entre o sono e o despertar
o instante entre a consciência e o desmaio
quando tentou explicar estas coisas
as palavras deixaram de fazer sentido e teve de recorrer ao corpo
a largos gestos de uma dança desconhecida
executada com o horizonte no pano de fundo e uma luz que lhe projetava a sombra para lá da existência
eu assistia com os olhos despenhados de assombro
aos poucos
também os meus braços e pernas começavam a ganhar vida própria
e possuídos por essa linguagem alienígena desenhavam os códigos indecifráveis da insanidade
passava da meia-noite quando nos levaram
mas o que eles não sabem
é que um devaneio não acaba
ele vive na eternidade
plana na imortalidade de uma comunhão
e hoje
anos depois
ambos ainda fechados em quartos diferentes e amarados em coletes de forças
ainda ardemos nesse bailado só nosso
num equilíbrio de corda bamba no horizonte ao longe
lançados em busca do destino final da sombra para lá de tudo projetada
no diagnóstico
consegui ler
a custo
em letras de médico hieroglíficas
amor insanus
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