aqui e ali
versos que ia lendo
um que falava da corda de um enforcado
oferecida como presente e com um apelo
aqui está
para o caso de
outro que mencionava anjos caídos
cujos os corpos alados eram encontrados decepados por um curioso que os vira de relance
e finalmente um que descrevia o musgo que sobrevivia no lado oculto de um tronco de árvore
que se encolhia em carapinha esverdeada e húmida à espera de uma gota de orvalho
estes remendos ia guardando-os em notas avulsas
empilhava-as a um canto à espera do inverno e da oportunidade de uma lareira
gostava de lançar um fogo com palavras
via nelas o combustível perfeito para as chamas se imporem contra o frio
e no baile flamejante das noites de neve lá fora
via nesses incêndios o futuro e o passado a desfilarem
mas nunca o presente
o passado refletia num dos lados da labareda
o futuro no outro
ambos numa batalha por uma simetria impossível
a crepitarem pela noite dentro até de manhã fumegarem um último suspiro
e então sim
na poeira das cinzas e nos restos chamuscados
revelava-se o presente
inerte
infértil
queimado
chegou a lamber esse chão cremado
provar e comprovar que o agora sabe a fumo
que é um embuste
que já se manifestou fora do próprio tempo
ao lavar a boca cuspia uma água escura
parecia sangue a coalhar ao luar
e ao olhar-se ao espelho viu o rosto de sempre
era isto
por mais que enlouquecesse nada mudava
nem mordendo cinzas nem lendo os poemas dos outros
talvez fosse mesmo a hora de usar a corda
ou de sair e entrar na floresta em busca dos querubins tombados
ou abraçar uma árvore até afagar as sombras musgosas do outro lado
ou
então
continuar a ler
continuar a enlouquecer
continuar
de qualquer jeito
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