ladeado por uma estrada que ia dar não se sabe bem onde
ou talvez se soubesse mas ninguém ousava dizer
era assim em tudo neste lugar
ninguém assumia saber o que quer que fosse
como se o medo pudesse transmutar a realidade
e eu que assisti ao meu próprio velório
ou nascimento
não sei bem
vagueava pelo meio desta gente
sendo mais um num mar desmedido de covardes
havia segredos que de tão antigos já se esqueciam deles mesmos
e promessas por cumprir que já tinham dado a volta às próprias juras
no tal descampado
por entre umas ervas daninhas
sobravam vestígios de um cemitério de outras eras
as campas gastas não deixavam vozear os nomes do mortos
mas havia noites em que o vento se encarregava disso mesmo
e pela madrugada fora enunciava os defuntos num linguajar já desconhecido ou esquecido
eram noites em que ninguém dormia
eram brancas de insónia
todos a revirarem-se nas camas
a levantarem-se e irem até às janelas
a engolirem água e outras bebidas
a fazerem contas às dívidas de sangue que nunca mais pagaram
a arderem os segundos um a um a ver se o sono queimava
em vão
nessas noites
os remorsos remoíam nos cantos escuros dos quartos e das almas
e não havia quem pregasse o olho
mas a manhã lá chegava
e apesar das olheiras
dos esgares ensonados e mais desconfiados do que o costume
a vida lá retomava
e sem compaixão
cada um
sem exceção
regressava ao medo quotidiano
às miudezas de um mundo onde o horizonte era demasiado perto e impossível de cruzar
o que sempre me chocou
desde que eu aqui chegara
antes ou depois ou durante um velório ou nascimento
que eram os meus
é que ninguém parece saber que cumpre um castigo
e eu
eu
também já não sei bem
deixei de saber
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