dia 225 - terra de danados

havia um descampado imenso
ladeado por uma estrada que ia dar não se sabe bem onde
ou talvez se soubesse mas ninguém ousava dizer

era assim em tudo neste lugar
ninguém assumia saber o que quer que fosse
como se o medo pudesse transmutar a realidade

e eu que assisti ao meu próprio velório
ou nascimento
não sei bem
vagueava pelo meio desta gente
sendo mais um num mar desmedido de covardes

havia segredos que de tão antigos já se esqueciam deles mesmos
e promessas por cumprir que já tinham dado a volta às próprias juras

no tal descampado
por entre umas ervas daninhas
sobravam vestígios de um cemitério de outras eras

as campas gastas não deixavam vozear os nomes do mortos
mas havia noites em que o vento se encarregava disso mesmo
e pela madrugada fora enunciava os defuntos num linguajar já desconhecido ou esquecido

eram noites em que ninguém dormia
eram brancas de insónia
todos a revirarem-se nas camas
a levantarem-se e irem até às janelas
a engolirem água e outras bebidas
a fazerem contas às dívidas de sangue que nunca mais pagaram
a arderem os segundos um a um a ver se o sono queimava

em vão
nessas noites
os remorsos remoíam nos cantos escuros dos quartos e das almas
e não havia quem pregasse o olho

mas a manhã lá chegava
e apesar das olheiras
dos esgares ensonados e mais desconfiados do que o costume
a vida lá retomava
e sem compaixão
cada um
sem exceção
regressava ao medo quotidiano
às miudezas de um mundo onde o horizonte era demasiado perto e impossível de cruzar

o que sempre me chocou
desde que eu aqui chegara
antes ou depois ou durante um velório ou nascimento
que eram os meus
é que ninguém parece saber que cumpre um castigo
e eu

eu

também já não sei bem

deixei de saber


Fez, Marrocos, agosto de 2018

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