dia 181 - homem-pássaro

ele perdeu-se num pássaro

de tanto o olhar nos voos erráticos da manhã
caiu-lhe para dentro sem conseguir escapar de novo
entrelaçado com a ave num enigma incorpóreo
no bater de asas frenético foram ambos por órbitas e elipses loucas desenhadas no céu

a vertigem apoderou-se da alma
ele converteu-se em peregrino numa rota traçada pelo ser alado
deixou-se levar nesse naufrágio aéreo
à deriva num périplo que ora planava sereno ora se despenhava a pique em direção às ondas do mar

os infinitos derramavam-se para lá do horizonte
o tempo parecia coagular junto ao solo onde o mundo estagnava em demora e esquecido de si mesmo

o que significa esta reencarnação
este exílio numa carcaça estranha
esta fuga do espírito num abandono rendido

talvez o devaneio tenha dado a volta a si mesmo
e a própria metamorfose é que o sonha a ele e ao pássaro

a verdade é que existe uma campa por cavar dentro de cada um
tal como existe uma centelha para fulminar
essas loucuras alastram-se no silêncio solitário que todos
mais cedo ou mais tarde
sentimos
ao mesmo tempo que comungam com a emoção flamejante de que pertencemos a algo

despassarado nesse paradoxo
seguiu nos voos etéreos
deu voltas ao mundo
ziguezagueando por meridianos e paralelos qual agulha certeira a tecer o manto do universo

por vezes
é impossível estancar a hemorragia de um delírio
não há torniquete que consiga suster a torrente de um desvario

o equívoco muitas vezes
é pensar-se que numa corrida
a meta é o anseio
quando na verdade
o real propósito
é seguir
seguir sempre

seguir
para sempre


Foz do Douro, dezembro de 2025

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