dia 157 - contagem decrescente

ele tinha uma hora

quando saiu para a rua viu outros encostados a olhar não sabe bem o quê
talvez a beleza da criação
anjos e o céu e o horizonte
ou os passeios o lixo e carros estacionados há demasiado tempo

avançou
atravessou os cruzamentos sem fazer caso aos sinais
desviando-se dos postes de iluminação e de pessoas agarradas aos telefones

por vezes entrevia-se nos reflexos das janelas das vitrines
um vulto rápido com contornos difusos dele mesmo

nalgumas esquinas pombos teimosos saltitavam até ao limite de um atropelo
para depois esvoaçarem em direção a um canto mais alto num prédio vizinho

enquanto caminhava o mundo passava enrolado pela cintura e pelo olhar apressado
como se no fundo
ele planasse em contramão de tudo o resto
as nuvens fixas no firmamento imunes ao vento que começava a levantar-se
o cabelo despenteado e o pescoço a pedir um ajuste do casaco que tinha ficado em casa
a hora ia escoando

o destino pouco importava
a cidade tinha um fim independentemente da direção
o mar de um lado
o rio de um outro
e o campo para os restantes
o fim
fosse o da cidade ou um outro
era inevitável

mas seguiu até encontrar a chuva que parecia ser uma promessa
quem sabe de alguém desesperado e com sede de um dilúvio
o cabelo molhado então e a roupa colada ao corpo
o corpo que esquecera até ao toque do cansaço

voltar para trás não era opção
mas podia deter-se debaixo de uma árvore urbana para recuperar o fôlego e sacudir a água dos sapatos

podia parar e lembrar-se das outras horas que tivera antes
de esquecer esta última que ia passando
recordar o passado
não todo porque isso seria viver de novo a vida inteira e voltar a este mesmo lugar
mas antes pequenas partes
pedaços insignificantes que povoaram a existência
as esperas os sonos o lavar a cara de manhã o abrir as portas que tivera de abrir

mas então deu-se conta de que da hora que tinha sobrava agora um minuto
e desse minuto
sobrava um segundo

depois
já nada sobrava


Antunes Guimarães, Porto, dezembro 2016

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