uma penumbra ligeiramente desfasada da silhueta suposta
como se a luz que lá chegara tivesse sido afagada por alguma coisa pelo caminho
quando
na verdade
nada nesse caminho a explicava
é sabido
o que nos chega é sempre a soma do que era quando nasceu mais a própria distância até nos chegar
é para além de uma coisa concreta um alento e um caminho e um impulso que a traz
eram estas considerações que ela fazia enquanto olhava a imagem
eu ouvia
esquecido da minha própria sombra e ainda menos consciente de onde ela viera e por onde ela andara
as minhas preocupações eram outras e não cabiam neste lugar
ela absorta nem sequer desconfiava de quão ausente eu estava
perdia-se nas divisões da galeria e atirava-se a cada obra com uma sede que eu desconhecia
a relação dela com a arte era de um predador
a minha era a de um perdedor
logo aí os nossos olhares seguiam por mapas distintos
onde ela sondava eu escondia-me
onde ela reagia eu de lá há muito escapara
no entanto
havia instantes em que nos reencontrávamos
em breves momentos de assombro e outros de tédio
como a dança frágil das ondas num ir e vir impossível de prever
mas era esse imponderável que nos mantinha perto
mesmo quando cada um era levado pelos labirintos da contemplação
o périplo de um e de outro ia-se escrevendo pelas sinas enrugadas das mãos
palimpsesto de palimpsesto
acrescentando ao que foi e ao que teria sido aquilo que é
para desaguar nesse mar improvável de acasos e destinos
para além de tudo isso
quando saíssemos
ela saciada de arte
e eu desolado pela confirmação da minha inaptidão total pelo talento
a hora dos nossos corpos se alimentarem um do outro chegaria
qual serpente a sorver a própria cauda
e desse excesso
por fim
sobre e sob o suor e os restos imortais de um amor
dormiríamos um sono tão profundo
que o dia seguinte jamais amanheceria
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