dia 176 - lembrança

o poço para o qual atiram moedas que tombam para sempre
que não tocam na água nem fazem um único som
vão caindo
levando com elas os desejos ou os desesperos ou ainda gestos vazios de um só porque sim

à volta uma fonte a derramar por bocas esculpidas numa minúcia que não existe mais
o líquido translúcido entornado sobre um mármore tão polido que o próprio tempo resvala e desliza até à eternidade

a audiência em redor
à espera dos milagres
tanto os prometidos como os inesperados
nisto da fé nunca se sabe bem

o rumor da cidade a bater nos peitos
como um segundo coração a pulsar
a cadência a ritmar um improviso
os mapas a emaranharem-se num labirinto sem sentido
há que aguardar o instante certo para voltar ao mundo
há que respeitar o lugar e o momento
deixar que eles se consumam e se cumpram por inteiro na praça cheia de luz

mais tarde
já longe
recolhido num canto de noite
num quarto sob o luzir escasso das lâmpadas de hotel
o corpo sentado na cama e no reflexo do espelho da parede

frente a frente
testemunhas de cada um
de um tom de pele levemente bronzeado de um dia ao sol
de um cansaço a fazer-se sono

é a hora da sombra e do silêncio
o dia que passou a viver num pretérito já
a lembrança a assentar numa catacumba esquecida
a diluir-se num nevoeiro penhorado
até ao dia que regressa
erguendo-se num ímpeto
feita versos feita poema
por fim libertada


Igreja de Santa Anna da Misericórdia, Palermo, Sicília, agosto de 2016

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