que não tocam na água nem fazem um único som
vão caindo
levando com elas os desejos ou os desesperos ou ainda gestos vazios de um só porque sim
à volta uma fonte a derramar por bocas esculpidas numa minúcia que não existe mais
o líquido translúcido entornado sobre um mármore tão polido que o próprio tempo resvala e desliza até à eternidade
a audiência em redor
à espera dos milagres
tanto os prometidos como os inesperados
nisto da fé nunca se sabe bem
o rumor da cidade a bater nos peitos
como um segundo coração a pulsar
a cadência a ritmar um improviso
os mapas a emaranharem-se num labirinto sem sentido
há que aguardar o instante certo para voltar ao mundo
há que respeitar o lugar e o momento
deixar que eles se consumam e se cumpram por inteiro na praça cheia de luz
mais tarde
já longe
recolhido num canto de noite
num quarto sob o luzir escasso das lâmpadas de hotel
o corpo sentado na cama e no reflexo do espelho da parede
frente a frente
testemunhas de cada um
de um tom de pele levemente bronzeado de um dia ao sol
de um cansaço a fazer-se sono
é a hora da sombra e do silêncio
o dia que passou a viver num pretérito já
a lembrança a assentar numa catacumba esquecida
a diluir-se num nevoeiro penhorado
até ao dia que regressa
erguendo-se num ímpeto
feita versos feita poema
por fim libertada
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