dia 165 - calendários

um suspiro caiu
tão baixo que nem tristeza nem alívio chegou a ser

esvaziou-se em sopro
resvalou oco nas catacumbas do que não se alcança

os pulmões encheram-se de noite enquanto o céu fingiu escapar-se

há silêncios que duram sempre mais um pouco
que se alongam para lá do suposto até finalmente cederem

não se pode adiar o inevitável
existe um prazo fixo para as demoras

os fogos ardem apesar dos jejuns e das promessas dos homens
eles projetam sombras até o dia nascer
desenham sobre as colinas e as encostas silhuetas e mensagens por descodificar

as poeiras de leste vão pousando sobre a terra depois de rodopios sem fim
o tempo coalha até fixar-se numa lembrança difusa

os versos carregam incertezas antigas 
não se sabe se já terão sido escritos ou se ainda estão por nascer
e nas asas dessa dúvida desenham voos em parábolas no firmamento
esvoaçam até terem voz que se petrifique e se grave nos diários da existência

não se explicam os murmúrios que ascendem do chão nas noites de verão
nem as chuvas repentinas que caem numa véspera qualquer

há sempre um depois de amanhã nos calendários secretos da poesia


Monverde Wine Experience Hotel, Telões, junho de 2026

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