não se consegue pregar um prego no céu
embora me pergunte como é que a lua não cai
nem sequer descai quando o vento sopra forte
nos quartos há luz que transborda para a rua
ela é líquida e derrama-se até se perder pelo ralo da noite
há uma madrugada inteira pela frente
e o silêncio na rua é antigo e cansado
certos desertos não são de areia
são apenas feitos de nada e emanam solidão como o calor de certas pedras após um dia verão
a estas horas
se os fantasmas existissem sairiam para assombrar
ou contar histórias
talvez de guerreiros que morreram pela espada
ou amantes atraiçoados por ataques de luxúria
ou ainda criminosos arrependidos já tarde demais
há muita mudez para preencher
um infinito de quietude por desbravar
sede e fome para matar e saciar
e claro
há palavras e as incomensuráveis combinações possíveis de as encadear
uma a seguir a outra e assim sucessivamente
onde nunca nada aconteceu
tudo é permitido
sobretudo errar
falhar miseravelmente é até o mais provável
mesmo sem comparação no presente o futuro encarregar-se-á de julgar sumariamente
e desse julgamento a sentença será proferida
ninguém escapa de onde não há saída
basta saber que o ar não se vê e ainda assim existe
eu vou indo pela rua
o céu sem lua nem lugar onde cravar pregos
cada vez menos quartos iluminados
e apesar de ainda sobrar muito silêncio pela frente
ao menos
para trás algum dele já foi exorcizado
e as palavras que por lá arderam jazem em cinzas que o porvir sentenciará
como disse
não se escapa de onde não há saída
Sem comentários:
Enviar um comentário