dia 166 - perpétuo

o que se revela
por vezes
apanha-nos desprevenidos
surge muitas vezes pela calada de uma noite em pleno dia até

de várias formas estas coisas já foram ditas
mas o que conta é a novidade que trazem
seja por de facto serem novas ou serem somente fruto de um esquecimento
acabam por valer o mesmo pois clamam por esse instante inédito e vibram num canto da alma que desconhecíamos

há uma subtil centelha inesperada a faiscar num breu profundo
e dessa iluminação manifesta-se uma presença inevitável
mesmo se tímida e sem rumo
ela é
e ser
tem o peso de um infinito

há um rosto que rompe o tecido da ausência
exibe-se
e com isso não só divulga os contornos de um perfil
como atesta a evidência de existir
e desse absentismo brota uma companhia etérea
e o deserto da solidão evapora-se num alento de comunhão
na prova derradeira  de que afinal não estamos sós

o paradoxo está no efémero e eterno
eles dançam vindos da sombra que tudo cobre quando não há talento nem imaginação
essa coreografia de uma pose que durou um segundo e ainda assim perdura para sempre

fica-se a olhar
calhou-nos nas contas do acaso testemunharmos um milagre
não era suposto vislumbrarmos a imortalidade
ela alegadamente pertence só às divindades impostas pela criação

mas aqui estamos
inegavelmente

e no raro lampejo que irrompe qual incêndio desmesurado pelo pasmo
o assombro acaba

mas acaba

por ser

perpétuo


Retrato de Rosa Carneio por António Carneiro, Museu Amadeo Souza-Cardoso em Amarante, junho de 2026

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