dia 167 - os que ficaram

ele foi semeando com afinco a própria presença
aos poucos
mesmo sendo o mais recente nos encontros
parecia já um veterano

quando era a vez dele falar
todos sabíamos o que ia dizer e mesmo assim todos ouvíamos com atenção

fugi de ter falecido
e nessa fuga soube perdoar-me

abria sempre os discursos com estas palavras
para depois se lançar num monólogo imparável

o que proferia apesar de não fazer sentido
entretinha a ideia de ser verdade
no caos da palestra as frases encontravam um destino

há viagens cujo caminho acaba por ser desconhecido
mas a meta ilumina-se como um farol ao largo de uma noite fechada

quando soubemos que afinal ele era uma fraude
que se tinha imiscuído no grupo para pagar uma dívida
que inventara um nome e uma história
que não acreditava sequer naquilo que dizia
a desilusão contaminou-nos até ao próprio lamento se esgotar

muitos queriam procurá-lo
tirar satisfações
exigir compensações
ver com os olhos e ouvir de viva voz a enganação

no fundo queríamos a confissão
queríamos a desculpa para um castigo
sentíamos sede de juiz e carrasco

mas o mais velho de nós avisou

a vingança é uma âncora mais no passado

e esse aviso refreou alguns de nós
uns covardes uns ajuizados

mas outros havia ainda que não fizeram caso
que partiram à procura do homem com facas nos bolsos e cordas sob os braços

hoje
passados muitos anos
nem dele nem desses que foram atrás chegaram notícias

os que agora falam recusam o tema
e os que ouvem não escutam por dentro senão outra coisa
mas saber-se do desfecho ninguém sabe

e na verdade
dos que por cá ficaram
também pouco se sabe


Amesterdão, março de 2018

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