dia 160 - alucinações

não sei bem quando começou
mas a tradição mantinha-se

a meio do outono
quando as noites começavam a pedir um casaco
e até ao inverno se derramar de vez
juntavam-se em volta de fogueiras improvisadas

cada um ia dizendo coisas à vez
e no fim
o mais velho fazia as contas ao que fora dito e encerrava os encontros com um monólogo

parece que muitos precisam sempre de ser salvos
não porque os de fora assim achem
mas porque eles mesmo sentem que carecem de uma qualquer escapatória

os que vivem numa esperança alucinada
afinal carregam um luto incompleto
seja ele de alguém ou de um tempo
de um amor ou de uma outra perda irremediável

eu nunca me envolvia
calhei de estar por perto um dia e a partir de aí fui voltando para ver

alguns olhavam-me com desprezo
outros nem sequer reparavam

lembro-me de uma vez uma mulher ter dito

quero uma outra língua e uma outra casa
uma língua que rebente com os muros da cela
e uma casa onde caiba o sonho
quero sentir que no futuro eu possa ser o meu próprio refúgio

vários dos que ouviam aplaudiram
outros dormiam

uma outra vez o mais velho abordou-me
pediu um isqueiro e perguntou as horas
não lhe pude dar o primeiro nem responder ao segundo
e foi então que ele disse

amanhã vai chover
eu já tenho dificuldades em me lembrar do futuro
não é fácil escalar a memória
mais vale inventar um passado de raiz

eu fiz de conta que entendi e afastei-me
o frio apertava e já era tarde

a tradição mantinha-se
o médico bem me disse que as minhas alucinações eram vitalícias


Dragoeiro, Ilha do Pico, outubro de 2020

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