dia 171 - alguns eus

ir ao encontro de todos os escapes
de partir com as possibilidades do que se imagina
mas também daquilo que nunca foi sonhado sequer

deverá ser verdade que tudo o que nunca aconteceu
preenche mais infinito do que aquilo que acontece

mas todos os dias alguma coisa tenta matar-me e acaba sempre por falhar
e eu
então
celebro na corda bamba do horizonte
no equilíbrio possível
por mais um dia que irá nascer

mas este eu é um embuste
ele vai desempenhando o papel momentâneo de ser verdadeiro
de acreditar no que diz e no que conta
mas o seu mundo é lasso
assenta em solos movediços e sujeitos a derrocadas definitivas

é um eu a prazo
como um cometa de passagem que vozeia enquanto é visível
mas que minga e se afasta numa órbita inalcançável

ao lado um outro eu escuta
que julga cada palavra
que procura na mesquinhez da sua natureza a satisfação de um tirano

mas esse também caminha em telhados de vidro
dorme com medo todas as noites
com vergonha e remorso da pequenez que carrega

tudo isto é um jogo de espelhos
e esses dois eus afinal navegam num mar de tantos outros
uns que se olham de frente outros cujo rosto desparece em ângulos impossíveis de contornar

o caleidoscópio de um ego exposto por um instante
até que colapsa na implosão inevitável das palavras que escreve

é certo que vamos sendo muita coisa ao longo do tempo
mas há um momento em que só podemos ser o que somos


Estação Europe, Paris, junho 2026

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