dia 161 - lugares

há lugares que se esfumam
são feitos de passagem
como algumas traças que vivem apenas um dia
isto se não se lançarem loucas para uma lâmpada a meio da noite 

esses lugares não dão tempo para grandes revelações nem traições 
eles consomem cada segundo
despenham-se para o momento seguinte sem olhar para trás 
são levados por uma pressa desconhecida e levam-nos também nesse frenesim 

o que não têm a perder não chegam a sentir falta 
e no registo do passado ficam-se por um quadro desfocado e uma descrição incompreensível
como a caligrafia dos médicos nas receitas de sempre

há uma espécie de insónia e amnésia que acompanham esta coisas
o nosso discernimento é toldado por um devaneio que se ergue
um jet lag irrecuperável 

vamos cumprindo a missão que desconhecemos mas que aceitamos por um qualquer compromisso de honra
vivemos segundo um código que herdámos e que se tatuou nos genes e nos guia o instinto

a consciência dita o inevitável 
seja uma ação ou um arrependimento 
qualquer um dos dois é vinculativo

estes lugares que não duram
ainda assim perduram
grudam-se em nós fulminantes

cada ruga conta essas histórias


Aeroporto de Lisboa, hoje

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