como uma farpa a teimar em dor intermitente na ponta de um dedo que nem serve para grande coisa
e tudo o resto à volta transfigura-se
dissolve-se num caos difuso e incoerente
a nódoa subtil na toalha da mesa
um quadro ligeiramente inclinado na parede mais afastada
ou quem sabe
o mundo inteiro é que oscilou e o quadro até está alinhado
estas coisas entram numa mente obcecada e medram sem freio
tomam conta de uma alma e aos poucos enlouquecem-na
eles bem tentam vir com terapias e meditações
mas esbarram num lugar que não crê nessas curas
ali as leis são outras e as cismas imperam com a firmeza de um delírio
a noite lancetada a golpes de uma tosse seca que não se sabe de onde apareceu mas que insiste em não desaparecer
um poema rasurado qual documento secreto
as palavras que tropeçam numa atabalhoada dislexia por diagnosticar
umas mãos cuja sina desde sempre se revelou errada e incapaz de se tornar realidade
o cabelo que só parece estar perfeito no dia a seguir ao corte nunca antes e muito menos depois
estes desiquilíbrios da vida que se tornam parasitas
que se alimentam de tempo
que o trincam até os dentes rangerem e a boca cuspi-lo pela janela do carro que acelera estrada fora
o suor que se manifesta atrasado
horas depois do esforço
como se tivesse à espera
ao contrário do sono que desponta cedo
fora de horas e sem aviso
como um predador ou assassino
até que a farpa acaba por sair
e do corpo esvoaçam as ânsias como um bando de pássaros assustados
erguem-se desvairados sacudindo as asas como se não houvesse amanhã
lançados ao horizonte como que a fugir do apocalipse
para trás o alívio e o cansaço de um espírito rendido
grato por uns momentos de sossego
o sabor de uma paz que sabe ser efémera e frágil
o dedo inútil a regressar ao anonimato
a toalha da mesa trocada
o quadro enquadrado de novo
a tosse serenada
e os versos livres finalmente
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