dia 168 - ânsias

por vezes basta um pequeno pormenor
como uma farpa a teimar em dor intermitente na ponta de um dedo que nem serve para grande coisa
e tudo o resto à volta transfigura-se
dissolve-se num caos difuso e incoerente

a nódoa subtil na toalha da mesa
um quadro ligeiramente inclinado na parede mais afastada
ou quem sabe
o mundo inteiro é que oscilou e o quadro até está alinhado

estas coisas entram numa mente obcecada e medram sem freio
tomam conta de uma alma e aos poucos enlouquecem-na

eles bem tentam vir com terapias e meditações
mas esbarram num lugar que não crê nessas curas
ali as leis são outras e as cismas imperam com a firmeza de um delírio

a noite lancetada a golpes de uma tosse seca que não se sabe de onde apareceu mas que insiste em não desaparecer

um poema rasurado qual documento secreto
como se a poesia pudesse alguma vez ser censurada

as palavras que tropeçam numa atabalhoada dislexia por diagnosticar
umas mãos cuja sina desde sempre se revelou errada e incapaz de se tornar realidade
o cabelo que só parece estar perfeito no dia a seguir ao corte nunca antes e muito menos depois

estes desiquilíbrios da vida que se tornam parasitas
que se alimentam de tempo
que o trincam até os dentes rangerem e a boca cuspi-lo pela janela do carro que acelera estrada fora

o suor que se manifesta atrasado
horas depois do esforço
como se tivesse à espera
ao contrário do sono que desponta cedo
fora de horas e sem aviso
como um predador ou assassino

até que a farpa acaba por sair
e do corpo esvoaçam as ânsias como um bando de pássaros assustados
erguem-se desvairados sacudindo as asas como se não houvesse amanhã
lançados ao horizonte como que a fugir do apocalipse

para trás o alívio e o cansaço de um espírito rendido
grato por uns momentos de sossego
o sabor de uma paz que sabe ser efémera e frágil
o dedo inútil a regressar ao anonimato
a toalha da mesa trocada
o quadro enquadrado de novo
a tosse serenada
e os versos livres finalmente


Céu do Rio de Janeiro, Brasil, junho 2026

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