o silêncio dita a manhã cansada
a madrugada anterior consumiu-se em fogo e em excesso
na autópsia da noite que passou
descobrir que o que morre uma vez não pode morrer de novo
há no vai e vem da memória
reminiscências diversas
de um céu coberto de luzes a erguerem-se como ícaros
de música a ritmar corpos e almas
de brindes cheios de um último fôlego até o futuro regressar
assim são as palavras que não chegaram a ser escritas
feitas de um atraso irrecuperável e que desaguam fora de tempo
vagueiam no limbo da lembrança
agarram-se ao que sobra do caos e esforçam-se por deixar a cabeça fora das ondas
existe nessa planície do esquecimento um vasto manto de ruinas
momentos e instantes cobertos de pó inclinados em equilíbrios precários
rostos cujos traços se vão anonimizando e confundindo até serem perfeitos desconhecidos
arrependimentos que se vão diluindo pela inconsequência de terem nascido um dia
na ressaca sobra muito pouco
pois quase todo o possível ardeu na véspera
e por isso o silêncio dita esta manhã emudecida
neste lento arrastar do corpo ensonado
no esforço poético de dizer alguma coisa que valha
há que esperar tropeçar nas palavras que sirvam
nas intermitências inesperadas do que vai acontecendo
a noite passada regressa em lampejo
tatuada no céu mais estrelado de sempre
pois aos astros costumeiros juntam-se os espíritos livres dos loucos
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