a força que alimenta um abandono uiva para lá da lua
a rendição do corpo perante uma vaga de suor que parecia habitar em segredo
e que agora inunda a madrugada onde o náufrago dá à costa
a língua só vai até onde as palavras a levam
para lá delas o silêncio impera
os dedos vão despejando a tinta de um poema
verso a verso como sempre
amontoados até onde a própria luz e leitura não conseguem chegar
a impaciência que surge após uma queda
o fervor da alma que não quer desistir enquanto o cadáver esfria
o coração que volta a pulsar sem se saber bem porquê
como os milagres que alguém ditou no antanho
e que agora vertem como água da boca do ressuscitado
uma segunda vida então
e só se lembra das palavras que leu um dia e que diziam
ninguém na vida teve tantos pecados que mereça morrer duas vezes *
mas ele lá se levanta de novo
e se numa vida não pecou que chegasse para merecer morrer duas vezes
com certeza numa existência mais o mérito cunhar-se-ia
os lábios morde-os até sangrarem
para os lamber até à anemia do espírito
sorver a textura das coisas para poder voar leve no delírio que o acomete
planar na loucura possível até que arda de vez e nas cinzas desse incêndio esconder o mistério que ele próprio desconhece
ensinaram que tudo se resume a uma permissa
que tudo começa por uma fundação
pelo alicerce que sustenta o que virá
pelo suporte que teime contra a gravidade
mas isso tudo é efémero e demasiado aborrecido
no vislumbre dos assombros
nos fogos indomáveis do ser
a verdade é outra e galopa sem freio
porque tal como cavar um buraco
a poesia inicia-se de cima para baixo
até ao fundo que não tem fim
ela é o salto do derradeiro precipício
*José Saramago em O Evangelho Segundo Jesus Cristo
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