habituados a uma certa melancolia
herdaram o abatimento dos antepassados
ao mesmo tempo que cultivam por cima desse terreno desolado um certo desdém pelas coisas
eu vejo-os por vezes à volta de um banco à hora do ocaso
uns em silêncio outros a murmurar desabafos
enquanto o sol não cai de vez
vão olhando quem passa e fazendo contas ao que sobra de luz
sabem que já faltou mais para que não reste nada
partilham os segredos que imaginam ser verdade
guardam-nos fundo num canto qualquer da alma e provavelmente repetem-nos à noite antes de dormir
sabem que um dia os deuses vão deixar de acreditar no mundo
perdidos na própria arrogância
esquecidos de que foram eles que o criaram abandonando a humanidade num manto de culpa
a própria penitência esvaziou-se
o caminho foi engolido por uma selva inesperada e indesbrabável
ficam assim à porta do futuro
sem conseguirem entrar
estagnados num destino imóvel enquanto tudo o resto ocorre sem dó
nunca cheguei a juntar-me
mas nasceu em mim um sentimento solidário para com essas almas
procurei timidamente fazer-lhes sinal
mas onde eles vivem não chegaram as minhas patéticas intenções
amanhã serão só uma lembrança gasta
eu próprio já não terei olhar que chegue para os alcançar
o vazio que vão deixar
rapidamente cairá em silêncio até ser substituído por outros devaneios
não se interrompe o porvir
ele é inevitável
sorve o presente na correnteza irremediável de cronos
para trás ficam eles
condenados por uma âncora que os atraca de vez
enraizada no antanho
tatuada num código pré-genético
são criaturas fadadas a um lamento
agarram-se a uma jangada existencial à deriva na tempestade cósmica da condição humana
são náufragos bem entendido
mas por pouco
noutras circunstâncias
com cartas melhores para jogar no tabuleiro da vida
teriam sido piratas
em vez de espectros condenados a compadecer
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