contemplavam a vista inviolável de certas janelas
como se a vida fosse uma galeria de arte
asséptica e limpa e paralela ao caos do que é real
um homem numa esquina fumava
escondia-se atrás das danças de névoa do tabaco
num jogo de eclipses e sombras
o rosto indefinido e provavelmente perdido
como o gato que se esgueirava por entre sacos de lixo e arbustos selvagens
ele ou ela
não se sabe
o mundo a passar por essas janelas
lá do outro lado
separado deles
ou dele ou dela
no outono as primeiras chuvas espalhavam as gotas de água sobre os vidros
sardas luminosas a multiplicar a paisagem infinitamente
refletindo quer o rosto
dele ou dela
quer a rua e os prédios e os carros apressados no final da tarde
no verão
quando o sol queimava o passeio
enchia o quarto de um calor de estufa
e o sono era pesado e lento
nas madrugadas
o silêncio percorria as distâncias de um frio que tudo igualava
ora ele ora ela
num arrepio contínuo até encontrar um cobertor mais para pousar sobre o corpo
essa indefinição sem fim à vista
ia sendo
com o peso que o verbo tem
e ia escapando à tentação de querer saber
se ele se ela
ou se até o próprio mundo lá fora
deixando-se ir nesse desconhecer de quem testemunhava tudo isso
a verdade é que
ou ambos ou um deles ou um outro
presenciavam e sustinham essas realidades
nada acontece que não seja sentido
ou então
que não seja declamado
qual poema
qual lamento
qual anseio
qual insignificância
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