dia 154 - ele ou ela

ele ou ela 
contemplavam a vista inviolável de certas janelas
como se a vida fosse uma galeria de arte
asséptica e limpa e paralela ao caos do que é real 

um homem numa esquina fumava
escondia-se atrás das danças de névoa do tabaco
num jogo de eclipses e sombras
o rosto indefinido e provavelmente perdido
como o gato que se esgueirava por entre sacos de lixo e arbustos selvagens

ele ou ela
não se sabe
o mundo a passar por essas janelas
lá do outro lado
separado deles
ou dele ou dela

no outono as primeiras chuvas espalhavam as gotas de água sobre os vidros
sardas luminosas a multiplicar a paisagem infinitamente
refletindo quer o rosto
dele ou dela
quer a rua e os prédios e os carros apressados no final da tarde

no verão
quando o sol queimava o passeio
enchia o quarto de um calor de estufa
e o sono era pesado e lento

nas madrugadas
o silêncio percorria as distâncias de um frio que tudo igualava
ora ele ora ela
num arrepio contínuo até encontrar um cobertor mais para pousar sobre o corpo

essa indefinição sem fim à vista
ia sendo
com o peso que o verbo tem

e ia escapando à tentação de querer saber
se ele se ela
ou se até o próprio mundo lá fora

deixando-se ir nesse desconhecer de quem testemunhava tudo isso

a verdade é que
ou ambos ou um deles ou um outro
presenciavam e sustinham essas realidades

nada acontece que não seja sentido
ou então
que não seja declamado
qual poema
qual lamento
qual anseio
qual insignificância


Palácio Belvedere, Viena, Áustria, abril de 2022

Sem comentários: