dia 158 - até não caber no horizonte

ela parecia genuinamente despreocupada
como se soubesse de algum segredo

o mundo à volta não passava do olhar
ficava às portas da alma
acumulava não um brilho mas um timbre pardo que denunciava da parte dela um descomprometimento total com a existência
como um nevoeiro permanente em frente dos olhos

não era um abandono
era um atestado de que tudo vira e tudo vivera

não era também desprezo ou aborrecimento
era uma espécie de certeza de que não existiam surpresas

falava pouco
e o que dizia era definitivo sem se impor
mais do que evidências ou constatações eram verdades simples e desconcertantes

não sei se era feliz mas não era infeliz
ela ia sendo como vão sendo todas as coisas mundanas

se calhar não explico bem
mas pouco importa
só a vi uma vez e foram uns minutos

cheguei a estas conclusões como se chega à última estação de comboio num país estranho

escrevo tudo isto de pé no meio de uma multidão
e o que é incrível
penso eu
é que é verdade

ela desapareceu engolida numa esquina
e eu
dado e suscetível à desconexão
deixei isso acontecer

agora sentado e sem ela por perto
resta lembrar as artimanhas ocultas de como passar despercebido
mas nenhuma me ocorre
e cada segundo que passa parece que todos me olham
quando na verdade ninguém repara

mas as cismas têm vida própria e ganham uma forma da qual é difícil sair

se ao menos eu lhe tivesse falado
a ela
podia ter perguntado de onde vinha aquela sabedoria absoluta
como é que a vida
por uma lado não a sacudia
nem por outro a incomodava

provavelmente ter-me-ia virado as costas e desandado
mas pelo menos assim
eu ficaria a vê-la ir até não caber no horizonte


Praia da Figueira, Monte Alto, Rio de Janeiro, Brasil, agosto de 2023

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