como se soubesse de algum segredo
o mundo à volta não passava do olhar
ficava às portas da alma
acumulava não um brilho mas um timbre pardo que denunciava da parte dela um descomprometimento total com a existência
como um nevoeiro permanente em frente dos olhos
não era um abandono
era um atestado de que tudo vira e tudo vivera
não era também desprezo ou aborrecimento
era uma espécie de certeza de que não existiam surpresas
falava pouco
e o que dizia era definitivo sem se impor
mais do que evidências ou constatações eram verdades simples e desconcertantes
não sei se era feliz mas não era infeliz
ela ia sendo como vão sendo todas as coisas mundanas
se calhar não explico bem
mas pouco importa
só a vi uma vez e foram uns minutos
cheguei a estas conclusões como se chega à última estação de comboio num país estranho
escrevo tudo isto de pé no meio de uma multidão
e o que é incrível
penso eu
é que é verdade
ela desapareceu engolida numa esquina
e eu
dado e suscetível à desconexão
deixei isso acontecer
agora sentado e sem ela por perto
resta lembrar as artimanhas ocultas de como passar despercebido
mas nenhuma me ocorre
e cada segundo que passa parece que todos me olham
quando na verdade ninguém repara
mas as cismas têm vida própria e ganham uma forma da qual é difícil sair
se ao menos eu lhe tivesse falado
a ela
podia ter perguntado de onde vinha aquela sabedoria absoluta
como é que a vida
por uma lado não a sacudia
nem por outro a incomodava
provavelmente ter-me-ia virado as costas e desandado
mas pelo menos assim
eu ficaria a vê-la ir até não caber no horizonte
Sem comentários:
Enviar um comentário