dia 173 - antes do tempo

o que as palavras diziam era ainda um mistério
mas os olhos tinham passado por elas de relance

tinha chegado mais cedo do que o previsto
não era suposto tê-los visto a guardarem os papéis sobre os quais tinham escrito a noite toda

incomodados pediram-lhe para esperar fora
que aguardasse até o mandarem entrar para limpar a sala como combinado

ele sabia que durante a madrugada juntavam-se às dezenas a escrever
e algo lhe dizia que desses muitos um ou outro estavam coagidos
esses saíam pelas traseiras levados pelos que vestiam fato preto camisa branca e gasta e uma gravata mal amanhada à volta do pescoço

tinha ouvido falar desses encontros noturnos
e quando um deles lhe perguntou se por uns trocos não se importava de limpar a sala à primeira hora da manhã
ele tinha dito que sim

das primeiras vezes chegara à hora combinada
a sala não tinha muito que limpar
uns copos de plástico com água morna uns lápis sem ponta e umas folhas amarrotadas sem nada escrito

mas hoje
calhou de chegar cedo e perdido na apatia rotineira entrara de rompante
vira a sair pela porta de trás um homem empurrado por um dos tais de fato
e numa das pontas da mesa comprida
dois outros arrumavam em caixas páginas inundadas de versos

não chegou a ler
mas era evidente tratar-se de poesia

um deles mais perto da entrada
pôs-lhe a mão no peito e enxotou-o para fora de novo e disse

espera

a voz era rouca e impiedosa

enquanto aguardava fumou um cigarro
tentou ouvir o que diziam lá dentro mas em vão
e até lhe darem acesso o silêncio tinha sido denso e pesado

quando voltou a entrar já só estava um dos homens presente
ficou com ele até a sala ficar limpa e acompanhou-o à saída no fim

antes de se separarem o homem disse-lhe

não precisa de vir mais
obrigado

virou costas e desapareceu no prédio devoluto onde tudo acontecera
deixando-o sozinho com o caminho de volta a casa pela frente

enquanto o percorreu imaginou o que diriam os versos que quase leu
se eram sobre o amor ou o ódio
sobre grandes feitos ou atos de coragem singulares
ou quem sabe
se eram sobre alguém que chegou antes do tempo e que viu o que não era suposto ter visto

talvez fosse isso
talvez


Bodega El Capricho, Léon, Espanha, fevereiro de 2026

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