dia 178 - silêncio e poesia

nem sempre a paisagem é nítida
e não é devido a neblinas ou a um fumo estranho que a tolde de repente
é antes um desfoque
uma miopia inata que esvai os contornos e dilui os detalhes

há por isso
nisto de andar em frente
um ato de fé ou a aceitação de um instinto
uma forma de coragem que nem sempre é consciente mas que vai mandando no reino da existência

por muito que vejamos a vida como inevitável
a escolha existe em permanência
ou pelo menos a ilusão dessa escolha

pouco importa se tudo já está escrito ou não
as palavras se alguma coisa nos ensinam é o poder que carregam
essa capacidade em dizer tanto a verdade como a mentira
numa dicotomia que acaba por ser inquebrável

se atentarmos à sua natureza
à textura que as cobre
às raízes de onde brotam
aos sopros que proferem
sobra entre a veracidade e a invenção
um lugar em que tudo é possível
tudo e o seu contrário

é a própria possibilidade que as molda e as forja nesse elemento incatalogável que as compõe

e depois há toda uma álgebra que se conjuga quando as palavras se juntam
o emaranhado labiríntico do que dizem ou supostamente dizem
e quando por cima desse mapa indecifrável se empilham as leituras
essa mesma possibilidade ganha novos infinitos perpetuando o ciclo até ao tal limite desfocado

por isso é que a poesia não tem fim e muito provavelmente também não tem início
é um horizonte e o que isso implica de relação com a distância e o tempo
por um lado inalcançável
por outro sempre presente
e nesse equilíbrio sustenta-se nos limiares dos pasmos e assombros

ela emerge de um silêncio órfão e partilha a mesma solidão o mesmo anseio fatal
ambos sonham em engolir de um só trago a vertigem que arde no íntimo
perseguem o instante preciso do salto para um abismo cujo fim não se contempla
farejam o escape impossível da eternidade
o uivo cativo desde que há idade

silêncio e poesia
sondam pela viagem que lhes calhou
uma última
e definitiva
palavra


Hoje, Foz do Douro, Porto, junho de 2026

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