virou costas há muito
não quis saber de sonhos nem de pétalas ou pérolas
sabia que tinha pela frente a eternidade
sabia que lhe punham infinito para engolir até nunca mais
mas ainda assim pedia
nem que fosse por um instante
alguma clemência
um pedaço de paz
não queria os louros nem as honras
não queria saber da moral nem da ética
como também não queria saber de injustiça e maldade
insistia para que o deixassem em paz
um homem precisa de silêncio
barafustava à nossa volta
curiosamente ninguém o procurava
era ele que noite após noite vinha resmungar
e talvez nessa rotina nos tenhamos tornado cúmplices
entrávamos na atuação
incentivávamos o coitado
e ele lá tagarelava pela noite fora
às vezes a mulher vinha buscá-lo
e ele ia contrafeito a dizer
também tu
nós ficávamos
ou não tínhamos mulheres
ou elas já há muito haviam desistido
e assim
um amontoado de solidões ia roendo o tempo
comentando o homem que se queixava e quão louco era
outros recusavam julgar
sabiam bem que a loucura não se sustenta sozinha
ela ergue-se apoiada nos ombros de outras
e cada um ali tinha a sua
quer o soubessem
quer o admitissem
quer a negassem
amanhã voltaríamos ao jogo
e cada um com o seu papel para desempenhar
ninguém escapa ao que acontece
Sem comentários:
Enviar um comentário