dia 152 - o que acontece

virou costas há muito
não quis saber de sonhos nem de pétalas ou pérolas
sabia que tinha pela frente a eternidade
sabia que lhe punham infinito para engolir até nunca mais
mas ainda assim pedia
nem que fosse por um instante 
alguma clemência
um pedaço de paz

não queria os louros nem as honras
não queria saber da moral nem da ética
como também não queria saber de injustiça e maldade

insistia para que o deixassem em paz

um homem precisa de silêncio

barafustava à nossa volta

curiosamente ninguém o procurava
era ele que noite após noite vinha resmungar
e talvez nessa rotina nos tenhamos tornado cúmplices
entrávamos na atuação
incentivávamos o coitado

e ele lá tagarelava pela noite fora

às vezes a mulher vinha buscá-lo
e ele ia contrafeito a dizer

também tu

nós ficávamos
ou não tínhamos mulheres
ou elas já há muito haviam desistido

e assim
um amontoado de solidões ia roendo o tempo
comentando o homem que se queixava e quão louco era
outros recusavam julgar
sabiam bem que a loucura não se sustenta sozinha
ela ergue-se apoiada nos ombros de outras
e cada um ali tinha a sua
quer o soubessem
quer o admitissem
quer a negassem

amanhã voltaríamos ao jogo
e cada um com o seu papel para desempenhar
ninguém escapa ao que acontece


São Paulo, Brasil, junho de 2022

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