dia 155 - viajante do tempo

o sopro vem de um lugar sem tempo
e os atrasos acabam por se anular
mesmo quando se revelam foram de horas

tudo acaba por acontecer

não é com as mãos que se agarra o presente
e o futuro já se cumpriu irremediavelmente

ele soube tudo isso
curiosamente
mais tarde
quando acordou e era já um outro dia e o passado tinha ficado para trás

independentemente da rotina e de uma ou outra aposta no porvir
no silêncio do agora
a vida pulsa e exige testemunho para não se despenhar

o desafio acaba por ser o tempo verbal
porque de cada vez que se conjuga existe uma demora intransponível que atira para o pretérito

ele soube mas não sabe
e tudo foi já não é

no entanto
as palavras viajam em paralelo
e são feitas de uma outra distância
fulminam mais velozes do que a luz
e estagnam mais lentas que o próprio cronos

o dilema acaba por naufragar em si mesmo
devorado por uma tempestade que nem teve início e cujo o fim não se avista

nestas coisas
o absurdo reina
ele é foi e será
ao mesmo tempo
que não será não foi nem é


Guarulhos, São Paulo, Brasil, junho 2018

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