dia 182 - última

era sábio
sem propriamente o parecer
sem sequer o revelar no imediatismo que nos corrói a toda a hora

tinha um ritmo próprio
logicamente desfasado de tudo o resto
não que estivesse adiantado nem que se arrastasse atrasado
era tão só descompassado

como se o coração batesse noutra frequência
nem acima nem abaixo
nem ao lado nem à frente ou atrás
apenas num outro idioma por decifrar

perdera uma parte do corpo
uma exigência que lhe impuseram para que pudesse continuar por aqui
era isso ou definhar
e essa suposta escolha não lhe pareceu séria
por isso aceitou que a tomassem por ele

e como sempre
os famintos saltaram em cima desse pequeno momento de poder e decidiram
traçaram um limite sobre a pele e decretaram
de um lado ficava ele
do outro extinguiam uma inevitabilidade

quando acordou
uma parte fora decepada
assim
tão só

quando fez as contas finais da existência
desaguou numa conclusão

o pedaço de carne amputada seria roubada mais tarde pelos que rondam à noite nas lixeiras humanas
os que farejam os restos que apesar de descartados nunca são partilhados
e depois
juntá-la-iam à coleção desses despojos qual relíquia num sacrário cujos deuses há muito morreram de solidão

quando nos sentámos a falar destas coisas pela primeira e única vez
ele disse-me numa voz que apesar de ligeiramente trémula ecoou até estes mesmos versos

podemos dar muitas voltas nos dramas que nos calham
mas há uma verdade crua e nua que inevitavelmente nos assombra

no fim disto tudo
a última pessoa no mundo
não terá quem a sepulte


Catedral de São Pedro e São Paulo, Nantes, França, outubro de 2017

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