dia 169 - o corajoso

não ia em direção alguma
e ainda assim movia-se num sentido qualquer que ainda não fora nomeado

a rosa dos ventos perdera as pétalas e o mundo oscilava para lá das orientações conhecidas
um vórtice paradimensional levava-o sem que à volta se pudesse perceber bem o que se passava

esta visão era registada pelos que o esperavam deste lado
rodeando-o até que a transe cessasse

aguardavam que ele regressasse para falar as coisas antigas de uma forma nova
ou coisas novas numa língua antiga
eram fiéis
dependiam desses dizeres para seguir com a própria vida
habituaram-se a que ele lhes indicasse os caminhos a seguir e os perigos a evitar

o culto crescera nos últimos tempos
ele chegara carregado por uma brisa e com muitas certezas para partilhar
encontrou-os perdidos e sedentos de liderança
juntou-os quando mais ninguém acreditava que o futuro existia

porque era disso que se tratava
de imaginar um depois do agora

ele chegara a um lugar em que o tempo emudecera e as pessoas não olhavam em frente
havia tanto de solidão como de desinteresse
como se até a dor tivesse perdido o pé num mar de desdém
nem o luto cabia e muito menos a esperança

o fenómeno era-lhe estranho
mas sabia ter a solução
e assim foi reunindo as hostes
unindo os descrentes
associando os voluntários

deu-lhes palavras que não entendiam
inventou uma forma de dizer coisas
prestou-se a experiências psicotrópicas que o atiravam para surtos dos quais voltava com novas soluções

os desconfiados achavam-no louco
e aos que o seguiam ainda mais loucos

mas a verdade
é que a loucura é uma medida do excesso
e o excesso está para lá da fronteira dos covardes
ele não esperava que o entendessem
sabia bem
que coragem não é para todos


Obra de Jackson Pollock, Number 21, Kunsthaus Zurique, Suiça, abril de 2025

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