dia 180 - tertúlia

quando foi a vez dela falar
levantou-se e disse com os olhos fechados

é possível morrer-se de palavras
passei um verão inteiro a ir atrás de turistas só para aparecer no fundo das fotografias como um fantasma
e ficava a imaginá-los em casa  depois das férias a olhar-me como um vulto meio incrédulos meio assustados
enviei postais que beijei antes de os meter no correio
comprei bugigangas nas lojas de recordações
coisas inúteis que acabei por deixar para trás
deixei que o calor me enlouquecesse até ao abandono

sobre as mesas as bebidas iam morrendo à espera dos lábios gretados
e nas cadeiras todos nós nos íamos afundando
como se os corpos se fundissem com os assentos e o próprio chão

faltavam ainda muitos falarem
era a noite em que cada um podia desabafar e todos tinham de ouvir
as regras eram claras e quem não as seguisse era convidado a sair

a luz da televisão sem som ia soluçando a um canto junto à janela
e de vez em quando
lá fora
um carro cortava o silêncio num estremecer que reverberava pelos vidros

falava agora o mais novo
um tipo metido para dentro mas cuja voz destoava pela sala

vejo nas nuvens os sinais de fumo antigos
decifro-lhes as mensagens secretas destinadas a poucos
não as posso dizer aqui
mas acreditem que em breve o céu falará a todos

aproximava-se a minha vez
e eu sabia que o que tinha para dizer não era importante mas era verdade
acho que isso acabava por ser respeitável

mas antes um homem rouco dizia de sua justiça

há uns anos
no buraco mais longe de onde eu suspostamente devia de estar
longe dos meus e longe até de mim mesmo
fumei todo o ópio disponível numa casa de chuto
como não tinha como pagar
fiquei por lá preso a limpar a chafurdice diária que um lugar daqueles regurgita
como imaginam gastei duas vidas e meia até conseguir escapar

estas coisas que esta gente ia atirando
ecoavam sem grande direção até se perderem no caos e na desatenção anestesiada da plateia

chegava a minha vez
e à última hora decidi afinal dizer outra coisa
uma coisa importante mas que era mentira
acho que isso acabava por ser mais decisivo

não cheguei a saber se o foi
no fim
como sempre
cada um desapareceu levando as solidões e os silêncios

eu fiquei
refém de todas as direções
nenhuma me levaria para longe de mim


Chão da Igreja do Pio Monte della Misericordia, Nápoles, Itália, março de 2026

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