dia 177 - o crime

ele tinha encontrado o caminho para uma vingança

nunca explicou bem de onde vinha essa conta por pagar
mas notava-se o alento a arder-lhe por dentro
e imbuído num espírito de missão parecia decidido em ir até ao fim

vinha sozinho a meio da noite e sentava-se sempre na mesma mesa
pedia uma bebida que durava horas
olhava a porta numa espera atenta e cerrava os punhos de cada vez que alguém entrava

quando não era quem ele aguardava
as mãos relaxavam e caíam de novo sobre os joelhos

eu sabia que um dia entraria a pessoa fadada
sabia também que a violência seria inevitável
e como tudo aquilo que se sabe
essa minha certeza foi também crescendo em ansiedade

era já eu a bater a perna em apreensão
a desfazer os pequenos guardanapos de papel em mil pedaços ainda menores
a imaginar o confronto
o primeiro golpe ou a primeira fala
o espanto do esperado e a raiva do esperante 

e que faria eu quando o caos irrompesse
iria ajudar
e qual deles
e para que fim

ficaria no papel de observador
viveria a inveja de não ter na vida uma afronta para vingar
ou até as tendo ser incapaz de as corrigir

há dois tipos de homens
eu e todos os outros
e isto é verdade para cada um que se questione sobre estas coisas

ele à espera roendo uma vontade que o domina
eu a ver se no teatro da existência me calha testemunhar uma tragédia de perto

até que de repente
pela primeira vez ele encarou-me
e os olhos cresceram como duas luas cheias numa noite escura
levantou-se e veio direito a mim

levei um segundo a perceber que afinal
eu era aquele pelo qual ele esperava
e no segundo seguinte percebi que a navalha orbitava perigosamente perto do meu pescoço

um reflexo levou-me o braço em proteção e o resto do corpo numa esquiva possível
o corte acabou por ser superficial
e no movimento remanescente acabou por desiquilibrar-se e cair a meus pés

peguei no meu copo
e no instante que o despenhei sobre a cabeça soube que o matava

tudo isto expliquei ao juiz uns dias depois

hoje passada uma década
nem do rosto me lembro
nem da razão pela qual tudo aconteceu

o que ficou foi uma cicatriz na garganta
e uma cela onde me meteram


Obra "Nature Morte au crâne" de Pablo Picasso, Museu de Serralves, Porto, novembro de 2018

Sem comentários: