dia 151 - o incréu

ela era uma artista pelos vistos
esculpia obras a partir do nada

a dificuldade maior
segundo ela e os seguidores
era precisamente encontrar a origem da obra
e de seguida a matéria-prima

a origem pautava-se por outros ritmos de tempo
raramente se alinhava com um momento de atenção
ela surgia inesperada e de surpresa

de seguida
também era complicado domá-la
esse início muitas vezes era uma torrente a cavalgar pela planície da inspiração
e até conseguir segurar essas rédeas era normal ela escapar-se inúmeras vezes

quando finalmente essa aparição acontecia
o desafio era encontrar a matéria-prima para a escultura
porque modelar nada exige um material extremamente delicado
não se encontram essas substâncias com facilidade
e é comum
que devido às propriedades invulgares de que são feitas
elas hesitem entre vários estados
do líquido ao gasoso ao plasma e ao irreal

todo o processo era para além de moroso um embuste
sim
assumidamente uma enganação
mas era isso
segundo o que diziam
que dava valor às esculturas

não cheguei a ver nenhuma das obras
mas também não era suposto
elas só eram acessíveis a quem acreditasse na mentira
eu tinha ainda um caminho a fazer

aconselharam-me a não me preocupar
que um dia
quando menos esperasse
a impostura revelar-se-ia
e então
tanto as peças feitas de nada ganhariam forma
como eu ganharia um lugar entre eles


Gafanha da Nazaré, Barra de Aveiro, abril 2021

Sem comentários: