dia 85 - memória

provavelmente
o que falamos é linguagem feita de memória
e a pele que nos cobre
por fora e por dentro
o manuscrito decalcado desse idioma

ele revela-se por marés que vão e que vêm até à ilha que somos
em ondas vindas de norte este oeste e sul
cujo sal nos sobe pelas raízes até se esculpir em lembrança

e essas recordações frágeis
que se derretem num instante
ainda assim deixam sempre um travo a mar inconfundível

há um mapa da nossa existência
e nele as rotas possíveis dos ventos e os traços impossíveis das travessias
o xis que marca o suposto tesouro
a escala das distâncias imensuráveis
os desertos planícies e florestas que se estendem no imaginário

provavelmente
uma âncora feita pedra no lugar de sempre
a segurar o oceano e o céu na lâmina do horizonte
a suster o universo para que ele não colapse nem se propague para lá de nós

e no fim
numa epifania
a memória foi-se revelando
falando comigo e dando-me forma

eu que nem sabia que estava deslembrado por aí


ps - Gilreu, Foz do Douro, Porto, fevereiro de 2026

dia 84 - sombra oblíqua

ele disse

primeiro foi a minha silhueta de penumbra
desapareceu de repente
esvaiu como um fio de água cinzenta para lá de mim
seguiu-se o meu corpo
esfumando-se como os nevoeiros devorados pelo sol no final das manhãs

o que sobrou foi uma sombra oblíqua sobre um muro de cal
sesgando a parede sem fazer caso às rugas e pregas
e um lampião também projetado num vulto geométrico de esboço

no entanto
enquanto falava
todos lhe víamos o corpo e um pedaço de sombra sobre o chão

sentiu a nossa descrença e retomou

face ao vosso ceticismo
não posso dizer muito mais
mas sumi naqueles instantes
e acreditem se quiserem
a verdade não é negociável

e ao sentar-se em silêncio
concordámos em dar-lhe o benefício da dúvida

afinal
não seria a primeira vez que algo rocambolesco era dito nos nossos encontros

e não seria a última em que um de nós
com a alma a transbordar
partilharia um sonho ou alucinação onde nos falta o chão
e nessa ausência por lá caíssemos
desvanecendo
para somente nos reencontrarmos no momento em que tudo isso vozeássemos


ps - Caves Graham's, Vila Nova de Gaia, outubro de 2017

dia 83 - tragédias

ela despia-se
e o vestido cai até hoje

ele encontra dentro da memória
esse lugar preciso de uma ideia do amor
mas o resto parece esfumar-se nos dedos do cigarro que ela vai fumando

eles conviviam esporadicamente
trocavam algumas palavras até só haver silêncio e a vertigem dos corpos

para ela o tempo deles era um entretanto necessário
para ele era uma entrega narcísica e altruísta ao mesmo tempo

não se moviam na mesma realidade
e só quando entrançavam as línguas é que convergiam

ela não estava bem ali
ele estava em demasia
e nem por isso o equilíbrio singrava

provavelmente hoje
passadas tantas outras desventuras
ela não tem por onde se perder em lembrança
e ele não há dia que por lá não mergulhe

eu
a ver de fora
percebo ambos
nem um nem outro escapam a um destino traçado

ninguém escolhe as suas tragédias


ps - Casa da Fundação de Serralves, Alberto Carneiro, outubro de 2019

dia 82 - tudo isto devia ser prosa

tudo isto deveria ser prosa
mas os versos teimam
quebram antes da parede imaginária
e quando
por vezes se estendem para lá
é porque carregam um alento a mais que não estava nas contas de tudo isto

a poesia será indomável
mas mortal ainda assim
pois esgota-se no silêncio inevitável

quem sabe se o poeta não faria melhor em rastejar para dentro de outra pele
ou então trocar de derme como as serpentes
ou aceitar uma metamorfose como exercício de humildade

o que sobra é que tudo isto deveria ser prosa
ter um princípio meio e fim
uma construção lógica e alicerçada numa argumentação plausível

mas não
o caos reina
dançando ao ritmo de intuições e instintos
como os loucos que bailam ao luar em praias desertas
ou os que bebem em bares decrépitos até o dia chegar
ou ainda
os cavalos do oeste a galoparem pelas planícies sem fim

não sei
ninguém sabe
num momento achamos uma coisa
no outro essa coisa esfuma-se por entre um delírio acabado de nascer
e que berra como se nunca tivessem inventado um pulmão

tudo isto deveria ser uma prosa
mas não se escapa à lei da anarquia
nem ao devaneio de uma insónia


ps - Recife, Brasil, outubro de 2018

dia 81 - eco

lembro-me de um texto antigo
daqueles que surgiam na sala virada ao mar
que falava de uma casa abandonada

de como o jardim a engolira
cobrindo a sala que dormia ao ritmo das cortinas rasgadas
e a cozinha e a mesa de caruncho e as cadeiras mancas
e os corredores e os quartos assombrados por um rumor de deserção

de como o mar a inundara de uma só vez
num maremoto imparável de solidão
submergindo-a até que a lembrança se confundiu com o esquecimento

de como o cosmos a apagou
naquele porvir tão lá à frente que não há olhar que lá chegue
desintegrada nas tempestades estelares e dilacerada no próprio cerne

o silêncio dessa casa
há muito fora proferido
nem as palavras sobreviveram

o que nos chega agora
é um resquício feito eco

eco esse que se dispersa até não ter por onde reverberar


ps - Vila Nova de Gaia, março de 2019

dia 80 - tricotomia

não queria nem precisava de mapas
desbravava o caminho a golpe de uma fome cuja origem desconhecia

e enquanto se lançava nesses impulsos
uma parte dele ficava para trás
parado na nascente da resolução

assim
um pedaço ia louco desvendar o desconhecido
outro imóvel enraizava uma mistura de medo e indecisão

o que ia
mergulhava na vertigem de um horizonte inalcançável e no pôr do sol sem fim
a eternidade pela frente ia ao mesmo tempo saciando a fome inicial e renovando-a em permanência
a ida era inevitável o regresso impossível e o destino uma miragem

o pedaço que ficava
prendia-se ao tempo
ancorado num momento preciso nascia e morria instantaneamente
como as partículas que viajam à velocidade da luz
que surgem e se extinguem no mesmo instante
assim
a ida era irreal o regresso redundante e o destino inútil

no fim destas contas
uma terceira parte dispersa e difusa completava a tricotomia
ela dita e escreve algures
entrança e tece esta rede labiríntica
e oferece de novo um convite a ir ou a ficar
fomenta o ciclo infindável e subtilmente poético de andar por aqui


ps - Serra de São Mamede, Portalegre, Alentejo, agosto de 2009

dia 79 - profecia

curiosamente
era antes de beber que ele se punha a falar

chegava sempre já a noite ia a meio
e antes de se sentar ao balcão
dirigia-se a todos e contava histórias e episódios

depois
pedia a bebida e mais ninguém o ouvia

vi a lua e um cometa por baixo a sublinhá-la
e sei que há uma profecia por trás destas coisas
terá de haver

não sei decifrá-la mas o céu não se presta a acasos
e cá por baixo
bem que precisamos de quem nos guie

enquanto o ouvíamos
cada um ia-se perdendo nos próprios presságios
nos alentos que pareciam ganhar força a cada trago

era a noite perfeita para fazer resoluções
morder as certezas e as convicções
sentir o ânimo de uma segunda vida
de renascer e conquistar o pedaço de mundo que era nosso por direito

mais tarde
quando a madrugada se extinguia e o dia parecia espreitar
a lua e o cometa ainda lá estavam
um pouco desviados mas presentes
e cá por baixo
os bêbados do costume a entrar na inevitável ressaca
as certezas a perderem-se em esquecimento
e a segunda vida afinal
igual à primeira


ps - Côte d'Azur, França, maio 2017

dia 78 - oscilação

existe a possibilidade de um traço encontrar um caminho
ele que pernoita há mil anos
anseia por esse escape para finalmente revelar-se à luz

na tela
os contornos de um barco e o eco de um reflexo tímido a vibrar até à mudez

à volta
uma manhã que se esgotou então
para renascer na voz de uns versos e nas leituras ocasionais do futuro

estas coisas não têm princípio nem fim
são oscilação entre silêncios e declamações
intermitências nas ondas rádio que soluçam no éter

ao largo
a embarcação aguarda ainda
a vela órfã de brisa e o leme sem corrente para singrar

a maré tarda e à deriva ficamos nós
sem rumo nem rota

só a espera suspira qual prece em forma de murmúrio
e o que sobra é horizonte por onde a vista se lança para por lá se perder de vez


ps - aquarela da Maitê Weill Steiger, Porto, janeiro 2023

dia 77 - propósito

por baixo
no fundo que não se vê nem se mostra
uma rede infinita de raízes bebe silenciosamente
sorvendo do húmus que fermenta desde que o chão é chão

desse ofício
com o sopro do tempo a sentir-se
surge por cima o fruto do esforço

ao longo das estações os ramos vão seguindo os caminhos invisíveis da gravidade
encontrando as fendas no contraste com o azul do céu e o casual voo de pássaro

nesse afinco espelham por cima o que as teias subterrâneas desenharam por baixo
e numa simetria etérea outros reflexos manifestam-se
as ruinas de um templo antigo
num amontoado de pedras com história

a teimosia de milénios não é coisa pouca
mas ainda assim
é um detalhe insignificante na perspectiva cósmica

e no final de todas as contas
o que sobra é o espelho dessa mesma pergunta

o que resta

e parece que por entre escombros esquecimentos e uma oliveira solitária
suspira através dos tempos
entrelaçando as texturas do passado e desaguando no mesmo lago de sempre
o das águas paradas do que não se sabe

e questionar e não saber
são o propósito de tudo isto


ps - Coluna de Peristilo, Vale dos Templos, Agrigento, Sicília, agosto 2016

dia 76 - a dormir

no labirinto da necrópole
por entre o que tinham sido alguns caminhos entre as campas
uma tumba em particular saltava à vista

coberta por poeira do tempo passado
duas palavras
gastas e desvanecidas
diziam

a dormir

talvez aí repousasse aquele mito sobre alguém que de tanto se esconder
ninguém mais encontrara e não mais voltara a aparecer

ao largo
numa das muitas sombras despejadas sobre a cidade
a estrada cortava a urbe de horizonte a horizonte
enquanto o céu transmutava por entre as nuvens num contraste que fluía

erguiam-se as torres dos oráculos
apontadas a um alto demasiado longínquo
e cujas profecias cumpriam tudo o que havia a cumprir
menos acontecerem

existia um vazio por preencher no escape destas coisas
e enquanto não surgia
por entre os silêncios e o sono ininterrupto dos mortos
cabia ir tecendo a demora
farrapo a farrapo
com fio que pudesse sobrar das linhas da sina daquele ou daquela que dormia


ps- São Paulo, Brasil, maio 2018

dia 75 - anjo

dizem alguns
que o universo
sobretudo a um nível quântico
é um fluxo
e que a realidade só existe quando alguma coisa é medida
que sem observação
na verdade
nada é
ou será eventualmente uma multitude de probabilidades

somente quando um olhar capta
é que o tal fluxo colapsa
e ocorre a falência da função de onda
e e ao desabar e despenhar-se
fixa
sendo enfim

e ao olhar o o corpo ali suspenso
imagino uma dor nas costas perto dos ombros
provavelmente a memória perdida de quando tinha asas

assim
voltando ao que escapa por entre o que se vai vendo
nem tempo há para o luto do que não se viu ou mediu

mas dando a volta a isso
aceitemos que tudo acontece ainda assim
basta sonhar com o instante em que por um acaso
alguém por lá passe a testemunhar


ps- escultura de Irene Vilar, o Mensageiro (2001), Lordelo do Ouro, Porto, junho 2023

dia 74 - conselhos

desbrava o caminho como se ninguém antes de ti por lá se lançara
até porque
na verdade
ninguém foi antes de ti
e mesmo se foi
não foi com os teus pés nem com os teus olhos
por isso
cada um é pioneiro de si mesmo a cada instante que passa

és o hóspede de um assombro
aproveita mas sê respeitoso
com a devida vénia prepara o uivo que é impossível de domar

bebe o essencial e o supérfluo sem distinção
pois a estrada é longa como as noites de febre e de silêncio

e um dia
lá na frente depois de várias marés terem ido e regressado
as tuas mãos serão diferentes e iguais
ignorantes e sábias
com as mesmas dúvidas e repletas de outras certezas

será evidente então
que nem a estrada acaba
nem o anseio de a encetar se extingue

tudo fica por fazer e nada se completa
não há melhor indício de que a eternidade está mesmo ali
ao alcance de uma intenção e de uns quantos atabalhoados versos


ps - Foz do Douro, Porto, julho 2013

dia 73 - distância

a distância entre as coisas
é uma entidade em si mesma
dialoga como tudo o resto que se vai revelando por aí
mas nem sempre se decifra o que vai proferindo

ela flui e navega por um meio que ora dilata ora contrai
levando-nos atrás por essas correntes secretas
cruzando os intervalos que o olhar soluça e as esperas ditam

por vezes
no contraste entre o céu e um edifício que parece surgir do nada
uma lua desponta à deriva pelas marés celestes

a vertigem implode num estremecimento interno

é então
que por milagre
o espaço que separa as coisas implode
tanto na origem como no destino
e qual íman entre os dois
olhar e lua desabam um sobre o outro

isso dura um instante
mas ainda assim o suficiente para que o tempo se perca
e dele sobrar um pouco menos de infinito


ps- Foz do Douro, Porto, maio 2016

dia 72 - compulsivo

desde sempre que ele falava de causas perdidas
ao mesmo tempo que celebrava o estremecimento da existência

aparecia à janela a gritar

desejo viver assim
com a sede que vem sem avisar
só não quero é morrer da mesma forma
sedento sem perceber

e voltava a recolher-se enquanto a cidade ia sendo lá fora
no compasso habitual de ser urbe
com os cheiros a asfalto e embraiagens gastas
os motores a grunhir nos arranques e as buzinas a palpitarem aqui e ali

lá dentro
ele ia acumulando esperas até ser hora de voltar a debruçar-se
calcorreava o caminho puído do quarto à sala da sala à cozinha
esfregando o rosto e passando as mãos pelo cabelo na luta perdida de o tirar da frente dos olhos

ocorria um duelo permanente entre o abandono e a loucura
ora caia um ora esbracejava a outra
e ele no meio
a assistir
apostando num vencedor sem grande convicção

haveria de chegar o dia
em que à janela
ou a cidade já não lá não estaria
ou ela o engoliria de uma só vez

como jogar um cara ou coroa com a última moeda
e depois de saber o resultado
fosse ele qual fosse
quase que o consigo ouvir deste lado a perguntar ao éter

à melhor de três


ps- São Paulo, Brasil, maio 2018

dia 71 - assombro

existem sombras feitas de luz e de cor
são a luminescência mais o eco por onde passou
e derramam um esboço líquido que tinge um destino numa escrita por decifrar

um plasma que se recusa moldar
vibra e contorna texturas que encontra no desaguar

o que traz é declamado em mistério
em código abstrato órfão de uma chave que o revele
joga nesse limite do que parece e do que verdadeiramente será

por vezes
o passar do tempo resvala como as brisas
têm tacto e afago subtil
como aqueles momentos de leve embriaguez em tardes lentas

um olhar que se dissolve pelo que vê
agregando-se por uma osmose literária ou somente emocional

os pequenos milagres inúteis da existência
ainda assim tão necessários ao deslumbre e ao pasmo

uma alma resiste a tudo
menos à falta de um assombro de quando em vez


ps- Vinum, Vila Nova de Gaia, fevereiro 2019

dia 70 - postura

vinha de vez em quando
quando os dias chuvosos iam desaparecendo e as noites demoravam a chegar

sentava-se sempre no mesmo lugar
pedia uma daquelas bebidas clássicas servidas em copos estranhos

falava baixo

às vezes fico a olhar o meu sofá
com a cova no mesmo sítio
testemunha de um corpo que se afundou horas e horas
o indício de uma solidão preguiçosa

na outra ponta o gato dobrado ao meio num sono interminável
no ecrã a ausência das reticências cintilantes
ninguém a escrever de volta
mesmo se não havia resposta ao que eu própria não escrevi
um silêncio apático tão grande que acabo por sair

pelo menos aqui tenho resquícios de mundo para onde atirar o olhar
e em vez de um sofá uma poltrona que me obriga a uma postura distinta

ninguém a abordava
cada um vagueava pelas suas sombras
a bebida ia mingando por entre as distrações
mas o porte
esse
sustinha-se como uma afirmação indesmentível

um corpo ainda vai sendo mais do que contorno e silhueta
ele emana uma certa forma de resiliência
mesmo desfolhando-se até dar a volta à própria nudez


ps- obra de Pablo Picasso, "Femme assise dans un fauteuil" (1910), Centro Pompidou, Paris, dezembro 2024

dia 69 - teoria poética

ele aceitava que os versos quebrassem antes do fôlego
que obrigassem a uma releitura até que se acertasse o supostamente pretendido pelo poeta

o que ele não entendia
era quando o próprio autor
ao ler em voz alta
recusava a quebra e ia buscar ao verso seguinte a continuação do sopro anterior

para ele
isso era ter a mania
e enquanto ouvia declamações de outros
abanava a cabeça incrédulo e ia dizendo

um verso vai até ao fim
e depois do fim fica calado até que o outro comece
sim eu sei
cada um sabe de si e essas coisas todas
mas então
que lhes caiba ouvir da minha parte um ide enganar o

isso
reticências

só que eu não acredito em pontuações
só intuições

vi-o afastar-se
desistindo de ouvir e avançando para longe
uma lua a espreitar por entre a poalha do ocaso
gaivotas lado a lado a espiar a chegada da noite
enquanto versos iam sendo lidos sem respeito pelos horizontes onde se estenderam


ps - Porto, março 2017

dia 68 - tragando

não havia grande mistério
a tarde ia a meio e as portas estavam abertas para a rua
a luz tinha o sabor tímido de um fim de inverno
ou talvez fosse a memória dessas coisas que entrava pelo bar dentro

há sempre uma dúvida que paira
a incerteza entre o que é real e o que é lembrança

seria fácil saber
se a imagem se embaciasse na hora
e a névoa se dissipasse de seguida como nos espelhos

o que é certo é que o copo esperava
o líquido dourado a prometer uma breve doçura antes do fogo
o gelo a consumir-se na diluição inevitável
prolongando o tempo mas também dissolvendo-o
elevando o paradoxo da demora mas também do desaparecimento
a cada trago um adiamento e um sonho menos concreto

a indefinição a revelar-se
a ser
a valer-se e a subsistir
como as ondas
não as que chegam à praia
mas antes aquelas ondulações que cremos avistar ao longe
a embalar o horizonte e a hipnotizar barcos e seduzir marinheiros

tragando
ao ritmo do que foi sede e passou a rendição
à deriva
do que era rumo e passou a poesia


ps - Candelabro, Porto, fevereiro 2025

dia 67 - vontade

para moldar a luz ou ela moldar-nos as mãos 
há primeiro que acreditar
mas ela não era de acreditar
não que fosse a desconfiança a razão
mas antes um desinteresse 
uma forma de não trocar por nada o pedaço de liberdade que lhe cabia
sim
talvez fosse uma cisma
mas era irremediável

há espíritos que são indomáveis
que não quebram mesmo se torturados
as raízes que os sustentam descendem das entranhas dos mitos e lendas
são forjadas num fogo primordial que não se apaga nunca

ela teria sucumbido a tudo
às muralhas de uma prisão
aos abusos e às injustiças
à falta de alimento e de calor humano

mas ao descrer
ao não pedir que a luz fosse moldável
ela não vergaria
pois o milagre era ela
e não se vence quem se recusa a ceder
a seiva encontra sempre um caminho
o apelo do sol é irresistível
e a eternidade não chega para calar uma vontade
nem impedir que os versos se amontoem
pois a queda não tem fim


ps - Viena, Áustria, abril 2022

dia 66 - desculpa para alguns versos

ele era um dos que acordava ao nascer da lua
espreguiçando-se por debaixo das poalhas noturnas que rodopiam em volta dos lampiões

falava sozinho
e com todos
dizia coisas com uma vontade que parecia vir de uma libertação qualquer

falo daquilo que se agarra aos ossos
mais do que à alma
que saliva em si mesmo
e onde nós só podemos ranger os dentes e grunhir
arder em fúria como uma febre
gritar amarfanhados numa almofada

depois desaparecia
engolido por uma viela ou furtado por uma esquina
deixando para trás um horizonte mais longínquo
um abandono mais silencioso
um céu em escamas nevoadas
um mar tímido e cansado
e uma desculpa para alguns versos


ps - Foz do Douro, fevereiro 2026

dia 65 - de tanto acabar

os dias quando acabam
na maior parte das vezes
esfumam-se na rotina

outros memoráveis tatuam-se na memória e fintam esses fins

mas há outros ainda
que antes do término
quando a noite galopa por mais uma janela de um quarto de hotel
se despenham de uma só vez

como um machado a cair num pedaço de madeira decepando-o sem dó
ou um piano clássico a defenestrar-se dum vigésimo andar e a esbardalhar-se no chão que o acolheu

um abalroamento tão repentino
que o dia parece implodir de uma vez
como aquelas estrelas massivas que de tão densas nem a luz deixam escapar

dias que de tanto acabar
entram pelo sono dentro
e só nos sonhos é que enfim encontram a sua sepultura


 ps - hoje, Goiânia, Brasil, março 2026

dia 64 - propagados

a conversa mais longa entre eles
durara duas ou três frases
o bastante para que houvesse conforto no silêncio
uma raridade preciosa que encontraram logo ali

partilharam a mudez entre bebidas e olhares lentos
num daqueles dias em que a noite estava tão atrasada
que quando chegou pouco faltava para ser amanhã

o cenário à volta espiava-os
fossem bonecas empoleiradas
relíquias empoeiradas
ou espelhos com molduras antigas cujo reflexo tinha cores sépia e abafadas
portais que desvendavam um outro tempo
um pretérito tímido mas que perdurava reverberando até eles

sobre a mesa os copos e por vezes uma mão ou um braço a descansar
os corpos a endireitarem-se na cadeira e no sofá à procura do aconchego perfeito
à volta as outras mesas com suas conversas
em suas próprias órbitas e translações em redor de um momento
ou talvez fosse a ventoinha no teto a rodar
e eles propagados por esse volteio
deixando-se ir até o futuro chegar e a quietude cumprir-se


ps - Pub Bonaparte, Foz do Douro, agosto 2021

dia 63 - apócrifo

dei por mim
numa noite em que estava sóbrio
a vasculhar velhos cadernos que roubara na véspera

por lá
li umas citações recolhidas pelo anterior proprietário dos ditos cadernos
eram tiradas de um bêbado com quem
pelos vistos
partilhava serões à volta de um interminável carrossel de bebidas

dei por mim a lê-las em voz alta

a diferença entre amanhecer e anoitecer
não existe
a diferença está no depois

quando saltei para a morte
do alto do prédio
o que vi durante a queda
foi a silhueta das janelas passarem por mim numa pressa que desconhecia
depois o chão engoliu-me e eu acordei para lá de mim

soube que te amava quando me lembrei daquele dia
em que fui encontrar-te à porta
pronta para sair de casaco vestido
recordo que endireitei-te a gola e fomos

passei uma existência sentado
durou mais ou menos tempo
mas durou
e fui nesse entretanto
ambiguamente mudando e intercalando estados
como no mundo do infinitamente pequeno
nessas metamorfoses delicadas e subtis
o meu corpo eu e a minha alma
revelou-se bizarro aos olhos dos outros
mas na verdade
os outros é que se deformam e se bestializam
eu sou absolutamente irrepreensível 


ps - Figura Sentada (1960) de Francis Bacon, obra exposta no museu Albertina, Viena, abril 2022

dia 62 - insular

não era propriamente um lugar
era uma estrada e uns quantos sinais
um caminho para o tempo não passar

um lugar exige um peso que o prenda ao chão
um alicerce qualquer que sustenha uma carga
um espaço para que haja história
para que coisas possam acontecer

ali
a luz e as sombras tinham um outro pacto
falavam uma outra língua
e o que parecia ser sítio
era etéreo e onírico
era uma dúvida e uma curiosidade

uma ilha
insular por dentro da alma
à deriva
onde quase sempre a terra era negra
e doutras vezes verde até doerem os olhos
o céu era branco até se confundir com a página de um caderno
ou tão azul que tudo parecia despenhar-se por ele adentro


ps - Ilha de São Miguel, Açores, junho 2017

dia 61 - culpas

pelos séculos
as confissões foram ecoando
herdadas e deserdadas às mãos dos que foram aparecendo

existem culpas que passaram por gerações
outras que se perderam
até não serem mais que órfãs sem lugar por onde remoer

nos templos
sob as abóbodas ou outras coberturas
dentro de muros ou atrás de portões
ainda hoje
jazem as que perduraram
à deriva numa imensidão de silêncios sem nome

elas são os alicerces do que teima em não ruir

é sabido
nada dura tanto como um arrependimento e uma penitência


ps - Amersfoort, Países Baixos, junho 2018

dia 60 - do alto

afundam-se
em lugares quietos

ora cobrem-se de seda e cetim
ora ficam nus à procura de um deus ou outro

no espaço exíguo de uma vida
há ainda assim muito caminho a desbravar
muitos silêncios por engolir e segredos por desfazer

eles são discretos
mas os corpos não deixam de ter a sede dos amantes
os olhos não deixam de seguir os voos nervosos das moscas no verão

a contrição a que se prestam
nasceu não se sabe bem onde
e hoje é órfã
por isso poucos a abandonam

eles vão seguindo um norte só deles
vagando pelas estações como alguns pássaros

imbuídos numa missão que desconheço
mas que intuo ao vê-los juntarem-se na orla das praias do outono
e nas colinas cujas estradas serpenteiam por curvas e contracurvas

no fim
eu sigo-os ao longe
daqui
do alto de umas palavras
da torre de uns versos
e do aborrecimento de uma espera

e muito provavelmente
por tão longe deles estar
o que escrevi não será bem verdade

mas também
quando é que o que se escreve
alguma vez é verdade

ou mentira


ps - vista da Quinta dos Malvedos para a margem sul do Rio do Douro, novembro 2025

dia 59 - pedra filosofal

a própria pedra parece ter raízes
num esforço geológico
trepa das entranhas da terra até ver céu e deixar-se inundar na luz do dia

arbustos e algumas árvores
acompanham a onda de fragas erguendo-se imponente
e é um milagre essa ladeira fazer-se penedo e penhasco

o ossuário à mostra
numa fenda que surgiu sem avisar
revela os contornos de um crescimento dorido 
feito à custa de uma insistência e de soluços petrificados em ritmos desconhecidos

mas talvez o mais difícil tenha passado
o sol está ao alcance
e o céu menos longe do que há mil anos
a pedra pode descansar agora
deitar-se ao sabor das sombras que vão revolvendo com o passar da manhã
demorar-se até anoitecer
com a madrugada sonhar de onde veio
e assim
deixar-se levar pela brisa infindável da erosão




ps - Sicília, agosto 2016

dia 58 - noite

a noite
como o universo
tem o seu fim onde não há propriamente fim

mesmo quando consome a madrugada inteira
e o dia nasce pelo corte do horizonte
ela então começa por debaixo da pele
subterrânea e secreta
dissimulada por entre os arrepios e os rasgos de uma inspiração efémera

quando se eleva num voo lucífugo
usando as correntes de ar vindas de um sopro divino qualquer
esquece a cidade em baixo
parece-lhe
à distância
ébria e geométrica

é para o abismo celeste que mergulha
nadando pelo céu aqui e ali sardento de estrelas
e é por dentro
num outro tipo de abismo
que trepa pelas paredes das insónias de um poeta
e apócrifa se rende aos versos


ps- Frankfurt, Alemanha, maio 2025

dia 57 - limbo

algures a meio da existência
nos arredores do que seria o presente
a própria voz chamou-o vinda de uma viela ao lado

depois de a seguir deu consigo mesmo encostado a um canto
ajudou-se a levantar após uns sopapos na face
e carregou-se de volta para onde estava
percorrendo um jogo de luz e de cor
de sombras grisalhas e penumbras pardacentas

havia outra metade da vida ainda por levar
anuiu
e deteve-se por instantes
abraçado a si mesmo
a observar o feixe de luz oblíquo a cortar o muramento
qual lâmina celeste imparável

de um lado uma incandescência
onde matizes se exprimem
do outro um obscurecimento
onde tons desmaiam

e ele com ele
ali no meio
na metade
ou por lá perto
nesse não-lugar
que não é nem o do remorso nem o ponto de não retorno


ps - Marselha, abril 2017

dia 56 - cativos

dão por eles atados num fado forjado há mil noites
o que os une é feito de um elemento ainda por descobrir
rege-se por outras leis
e amarra-os numa gravidade sem velocidade de escape possível

condenados a rondar
quer o mundo quer o tempo
desprezam-se a espaços e buscam-se nos entretantos
e nessa hesitação permanente
cortam o medo e a coragem por igual
seja a vertigem ou a ânsia a comandar os seus atos

ambos reconhecem que existe um observador
para ele reservam olhares cúmplices e de reconhecimento
sabem bem
que para alguém se demorar a vê-los
com certeza também é cativo de uma sina
e por onde eles andam
há sempre lugar para mais um


ps - detalhe da obra Levitation (1915) de Egon Schiele, Leopold Museum, Viena, abril 2022

dia 55 - arautos

quando finalmente me abordou
vinha preparado para explicar tudo

eu sei que no mundo
transitam mensageiros de realidades ocultas
arautos de um universo que se nos escapa

lembro-me de uma mulher que nunca me amou
mas que não deixava de me afagar o cabelo com ternura
de contar o tempo dos ritmos quando eu dançava pela madrugada fora
de fazer de conta que lia o que eu escrevia
lembro-me também de uma escultura junto à foz de um rio
de um anjo em bronze que parecia triste
e que no entanto
oferecia conforto aos que por ele passavam
recordo os primeiros corvos que vi nos jardins do norte da europa
pedaços de um luto que eu desconhecia
criaturas transcendentes que de tão cheias de si
pareciam ignorar tudo o resto e percorriam o tempo por entre grunhidos e soluços

eu ouvia tudo isto de uma só vez
dominado pelo monólogo repentino
apanhado desprevenido no meu pasmo rotineiro

no fim
calou-se
e os dois olhámos para o que sobrava
que era ao mesmo tempo
uma inconsequência e uma transmutação


ps - Londres, junho 2025

dia 54 - como um sol

o quimono era preto
fundia-se com a noite
a vénia que desenhou
cortou a sombra num vai-e-vem preciso
disse

em tempos encontrei um haiku
descrevia um excesso de luar
que era reflexo de lâmpada numa taça de chá

sentou-se no banco que dava de frente para o quintal
olhou como quem despeja o olhar para lá das coisas
e até interromper o silêncio
parecia que o tempo não passava
como se a contemplação 
num esforço contido
segurasse a grande vaga inevitável

mais à frente
voltou a falar

a flor
nasce
como um sol
no jardim de inverno

e então fez-se zénite
na declamação serena dos versos
as pétalas incandescentes a delinear a estrela por entre a madrugada


ps - Vila Nova de Gaia - março 2018

dia 53 - destino

nem sempre
nas noites escuras e desabitadas
a luz é um farol

por vezes
a luminescência é um monólogo interior
e o que diz resvala num duelo entre ulos e ameaças veladas
o que eventualmente se propaga para o exterior
é um fogo fátuo condenado a ser detalhe

porque o mistério está no andar adormecido lá no alto
onde
quem sabe
o artista queima as madrugadas em claro
esboça em telas por nascer traços inomináveis
ou então
dorme com teimosia até que a manhã nasça

não sabemos
e essa ignorância vai carregando um questionamento
que como se sabe
é um equídeo incansável que trota até não haver mais planície

no fim
como no início
resta uma insistência
uma cisma em ordenar um caos e um destino
seja ele qual for


ps - Bruxelas, abril 2019

dia 52 - profecia

voos há
que são lidos antes de serem escritos
elevam-se etéreos pelos céus de uma aparição

e o poema à espera
adiado não para a frente mas para trás
suspira por dentro
claustrofóbico
a fazer um luto de algo vivo

como se os versos dobrassem até a um limiar indizível
vergando mas nunca quebrando

perderão quem sabe a pose
mas não a voz nem o propósito

pois momentos há na vida em que se parte
outros em que se volta
e nos regressos
sentado em casa
um eu espera
ou um outro
alguém
sempre alguém

por cima
nos altos
envolvida pelo azul denso da manhã
a silhueta subtil de um presságio indecifrável mas concreto

a profecia destes versos que agora tropeçam


ps - céu na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, Brasil, agosto 2023

dia 51 - o uróboro a fénix e o poema

cabe o mar
por vezes
num reflexo fortuito
como muitas vezes não cabe na alma
quando transborda em sonhos onde sem rumo fundeamos
dando à costa das insónias um náufrago mais

os barcos aí desenhados
parecem nunca acabar de atracar nem nunca começar a rumar
vivendo num limbo entre o real e uma mentira
não chegando a bom porto nem cruzando horizontes
como se se valessem somente da âncora do instante
sem passado nem futuro
presos num presente que se devora
qual uróboro essa serpente que sorve a própria cauda

à volta
o mundo corre
amplo e solto
sem um já
despejando permanentemente o pretérito no porvir
uma fénix que morre e renasce sem descanso

e o poema
sem tempo algum
nem antes nem depois nem agora
uma possibilidade que se propaga
ora em ínfimas leituras
ora em silêncios perpétuos


ps - Foz do Douro, Porto, janeiro 2017

dia 50 - aracnídeo

as teias de aranha a contarem o tempo
escondidas num qualquer armário esquecido durante décadas
escurecendo a golpe de pó e a restos de lembranças
secando até serem quase pedra nas esquinas subterrâneas

a memória desconstruída
agarrando-se só a um pedaço vago de reminiscência

os deuses arrependidos desta nossa suposta fragilidade
desculpando-se ao oferecer-nos desejos e falsas promessas

não sabem eles
que tanto vale cumprir uma jura como quebrá-la
que os dois caminhos podem levar à demência

fomos dominando a arte de perder
perder alcance no olhar
perder labaredas nos fogos silenciosos da alma
perdendo sono quando a noite é densa e muda

no entanto
nessa arte
revelámos o aracnídeo incansável que une todas as coisas
mesmo que falando pelo caos e numa cacofonia difícil de decifrar

há uma disciplina movida por um instinto mais antigo que cronos
uma resiliência paciente tecida ao ritmo dos nossos corações
até que um dia deixe de pulsar nos intervalos que caibam numa existência


ps - "Maman" (1999), escultura de Louise Bourgeois, exterior do Museu Guggenheim, Bilbao, agosto 2018 

dia 49 - até não haver mais mundo por onde ir

desde sempre que uma loucura o habitara
galopara-lhe pela alma até incendiar o olhar

vivera numa sede permanente
e acometiam-lhe sonhos que o devolviam a insónias intermináveis

ora sonhava que a luz voltava a um suposto berço
espalhando-se pelo mundo em ouro e prata
soterrada nas entranhas da terra
e que ele
qual garimpeiro
dedicava-se a peneirar todos os chãos
até saber cada pedra de cor

ora alucinava que um poço engolia a noite
sorvendo-a até desenhar no reflexo ondulado da água um céu estrelado
enquanto no pátio abandonado que cercava o furo
uma tempestade de mil folhas rodopiava até se render num novo suspiro
redistribuindo um tapete outonal como quem dá cartas num jogo cansado

há quem diga
que se perdera às portas do maior deserto
que se evadira para lá de dunas antigas

enfeitiçado pelo azul celeste e o calor insano
terá seguido uma lua solitária que nunca se escondia
esgotando os uivos que carregava
cuspindo-os para lá do cosmos
navegando as ondas trémulas das miragens
até não haver mais mundo por onde ir


ps - algures às portas do Saara, Túnisia, agosto 2017

dia 48 - aquarela

talvez ela pudesse acreditar mais no traço
confiar que o rasgo consegue entrelaçar-se pela textura
ondear no caminho leve de uma inspiração
e desaguar em lavandas luz e realces

deixar-se guiar pela claridade da manhã
percorrer a trama do papel
navegando a ideia pelas curvas de um vaso
soluçar no jogo de sombras
até ao naufrágio do desenho final

quem sabe até
se no ar irreal não esvoaçam os pólenes de uma primavera vindoura
se não contagiam olhar e garganta até a um espirro contido
e outro a seguir
que um nunca vem só

a elegância é a revelação de uma simplicidade delicada
e a aquarela desvela-se inesperada
como aqueles barcos muito ao longe
no equilíbrio frágil da linha do horizonte
ora para cá
ora para lá


ps - aquarela de Maitê Weill Steiger, Foz do Douro, Porto, fevereiro 2023

dia 47 - o delírio que escapou

quando escreveu em tempos
sobre o que era preciso para que um lugar fosse lugar
talvez lhe tenha escapado um delírio

os desertos nunca pertenceram a ninguém
nem mesmo a eles próprios

há sítios que repercutem não só pelo tempo
mas também por um mundo silencioso e inalcançável
como se já lá estivessem no antes e lá permanecessem no depois
e quando se revelam no aparente agora
não são mais que uma manifestação do irrisório

ao poeta
penso eu
só lhe resta a obsessão de uma crónica da alma
ou a ameaça velada de quem o obriga a escrever

ele também já denunciara essa quadrilha anónima
de gente à caça de palavras

pergunto-me
o que sobra dos assombros que nos assaltaram um dia
como aquele ocaso do outro lado do mundo
ou o primeiro beijo com o calor de outra língua


ps - Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, Maranhão, Brasil, agosto 2025

dia 46 - costume

vamos então
pela pele tatuada em quartos sem luz
cujos desenhos somente se revelam quando há luar

e indo
ergue-se a fachada de um anseio
daqueles movidos pela fé
em lugares onde a terra húmida é fértil em silêncios
e as gentes esperam dela alimento e o repouso eventual no fim de tudo isto

os versos
esses
esvoaçam pelo céu indiferente
esfumando-se na cinza etérea do firmamento
diluindo-se no manto leitoso de uma só nuvem que cobre toda a cúpula acima do horizonte

a contemplação é uma disciplina obrigatória por estes lados
é um compromisso com a existência
um costume para que a rotina não engula a vida de um trago só 


ps -Basílica de St. Plechelm, Oldenzaal, Países-Baixos, março 2019

dia 45 - do teu valentim

em teu encalce
de coração nas mãos
para que ele volte a casa
onde pertence

lembrando que o amor tem dia
fosse ontem
seja hoje
sendo amanhã
desde que um de cada vez

e como nos mitos e nas lendas
dos cupidos e dos santos
há sempre um sacrifício nestas coisas

mas o que é uma provação
quando a recompensa és tu


ps - Alfândega do Porto, exposição fotográfica "Banksy's Dismaland and Others" de Barry Cawston, janeiro 2019

dia 44 - incumprida

elas entre os silêncios iam dizendo coisas
falavam da vida e de um modo de engolir o tempo como um dever

quem sabe se essas lábias não serviam de refúgio
como o herói que deixava que o celebrassem
para que os rostos dos mil inimigos que às mãos dele morreram
não o assombrassem à luz das insónias

em vão
tanto para o herói como para elas

a espera era inevitável
e não era de hoje
mas desde sempre

um gemido contido ao fundo
as unhas a cravarem o próprio tecido do universo
até o rasgar

pode ser que por essa fenda
o esgar tenha mundo que chegue para que se dilua
e a fúria possa enfim bramir sem freio até que se esgote o sopro

neste lugar
tudo cabe
só nada se cumpre


ps - A Cinta, obra de Paula Rego, Casa de Serralves, Porto, outubro 2019 

dia 43 - três pensamentos

pensou

tantas palavras
uma imensidão delas
infinitos em cima de infinitos
e se contarmos as que se perderam pela história
ou mortas ou esquecidas
ainda mais se somam ao que já de si não se calcula

e no entanto
quantas palavras não existem para um luto um desalento ou uma injustiça

talvez somente faça falta uma para essas coisas

uma que nunca tenha existido
nunca forjada nas fornalhas do que um dia nos fez ser quem somos

palavras há que não existem
e que fazem falta
nem que seja no instante em que se revela esse vazio
esse lugar sem silêncio nem ruído

pensou

tantos momentos em que nos esquecemos
mas de repente a terra nos lembra e a gravidade faz o resto

pensou

houve alguém que contou como tentou ter um filho sem o corpo
nem o dele nem o da mulher
invocou um fantasma que nunca viveu
e desculpou-se depois
por o ter trazido assim ao mundo
órfão mesmo antes de ter pais


ps - obra da Edvard Munch, D'Après. "Two Human Beings, The Lonely Ones, 1894" - Galeria Albertina; Viena, Áustria, abril 2022

dia 42 - divagação

ele divaga
não tanto sobre o fim
nem tanto sobre o início
mas antes sobre o instante entre os dois limites

não sabe de onde ela viera
nem como ali chegara
mas de novo
esses dois recortes não são o mais importante
ou pelo menos não são a razão da intriga

interessa-lhe sim o ponto intermédio
de quando artista e modelo se cruzaram

e aí se questiona

se o lenço tinha origem
se o cântaro levava água vinho ou azeite
se as cerejas estavam maduras
se eram cerejas
se os traços do rosto falavam de sol de sal e de fenícios

se o retrato demorara uma tarde
ou duas
ou uma paixão passageira
ou um para sempre

se quem o pintou estava nervoso
se atrás de um outro se
um segredo qualquer sussurrava
ou um mistério ou uma promessa

tudo isso ele cisma
tudo isso ele considera
e conclui
que desconhecido o início
indagado o intermeio
resta afinal o fim

numa viela num mercado numa ilha
ela anónima
o artista ignoto
um rosto entre o descanso e o sereno
um olhar a ser olhar
os lábios cheios e reservados
uma fruta momentaneamente adiada
e um retrato a viajar em devaneio
a desaguar em versos
a rumar em leitura
a ecoar em lembrança
a calar em olvido


ps - Plaça de la Llibertat, Ciutadella, Menorca, agosto 2024

dia 41 - gerúndio

houve um tempo de partilha
engrenada numa rotina diária
à imagem de outras que vão acontecendo

e hoje
passados anos
lembrei-me de que se calhar
por uma inesperada coincidência 
reencontrei-me no passado

talvez porque há lugares que transcendem cronos e outras futilidades
talvez porque é tarde e urgente são os versos

o que sei
é que há um quarto e uma cama desfeita
onde vou estando
e este gerúndio
é infinito


ps - Paris, outubro 2022

dia 40 - apontamentos de um coma hipotético

dava nome a constelações que ia inventando
fosse olhando para o céu
ou olhando para qualquer outro lado

nas ruas sujas
nas paredes dos corredores dos hotéis 
nos salpicos da chuva numa camisa
ao espelho de manhã quando ainda a poeira da preguiça ondulava

tinha sonhos onde pássaros debicavam essas estrelas
voando pelo sono
planando pela febre que ia sentido crescer

e quando o incêndio do delírio lavrava para lá do corpo
o universo invertia-se
era agora um plano branco e deserto
onde os próprios pássaros faziam de astros

e ninguém saberia dizer
se em suas órbitas oníricas
estariam a entrar numa rota de colisão eventual
ou se o doente
desta vez
não acordaria mais


ps - numa galeria em Miguel Bombarda, Porto, novembro 2017


 

dia 39 - enigma

por onde andou
ninguém sabe ao certo

o que contou esfumou-se em penumbra
como um lago escuro onde a água engole a luz em vez de a refletir
e é quase sempre noite

o mundo engolira-o a dada altura
disse

soterrado num sítio onde o tempo era de terra e pedregoso
os dias
se passavam não davam conta a ninguém
e o corpo esquecia-se de si mesmo
possuído por uma seiva que pulsava por veias inomináveis

hoje
não se sabe se alguma coisa mudou
embora o corpo já se lembrasse
pois doía-lhe num âmago qualquer que hesitava em ter lugar

estas coisas
diz quem sabe
revelam-se em incompreensões
e mais do que um mistério
são vestígios de uma humanidade
para a qual ainda não se encontrou a chave que a decifre


ps - estação de metro Thieffry, Bruxelas, março 2019; escultura de Félix Roulin

dia 38 - renascimento

sempre que voltava de um dos seus exílios
trazia uma história

quando não estava
a ausência era anónima e passava por entre as roldanas da rotina

se um dia não regressasse poucos dariam conta
ainda que esses poucos a conta que dariam seria bastante

ele falava de como se deportava e enclausurava
de como passava as noites em pesquisa
num vasculhar por entre as sombras
fossem as reais ou oníricas
em busca de assombros ou indignações ou desistências

provavelmente esses delírios tinham ajuda
sempre fraquejou perante os vícios
sobretudos aqueles que o lançavam em queda livre
não fosse ele próprio um devoto de vertigens
e não era incomum que se perdesse para lá dele mesmo

e desta vez
ao dirigir-se aos que o ouviam
falou com a voz de quem passara pelo abismo do desassossego

amigos
não vos conto por onde andei
isso fica para outra vez
mas conto-vos onde acabei

e após se recompor na cadeira
continuou

vi um céu no fim de um tormento
recortado por uma trama de nuvens e luz
balançava ao sabor da manhã e corria leve

eu pensei
acabei de nascer

não disse mais nada
exausto recolheu-se
foi a última vez que o vimos


ps - Gerês, setembro 2017

dia 37 - sentença

quando Ícaro caiu e se afogou
o mito levantou-se num segundo voo
esse
imune às fornalhas de todas as estrelas
peregrinou pelos infinitos e vagueia até hoje nos horizontes trémulos da memória do mundo

não há relatos de ter dado à costa
o corpo roído ou pelas marés ou pelo fogo do sol

ainda assim
num lugar onde seguramente antes dos templos erguidos para durar meia eternidade
oceanos primitivos ondulavam
jaz a silhueta do fugitivo malogrado

e nas poeiras enlouquecidas pelas brisas dos finais de tarde
é um outro labirinto que o condena e o emaranha

a sentença que invariavelmente cumpre
no ciclo inquebrável da alegoria


ps - Icaro Caduto, escultura de Igor Mitoraj, Valle dei Templi em Agrigento, Sicília, Itália, setembro 2016