provavelmente
o que falamos é linguagem feita de memória
e a pele que nos cobre
por fora e por dentro
o manuscrito decalcado desse idioma
ele revela-se por marés que vão e que vêm até à ilha que somos
em ondas vindas de norte este oeste e sul
cujo sal nos sobe pelas raízes até se esculpir em lembrança
e essas recordações frágeis
que se derretem num instante
ainda assim deixam sempre um travo a mar inconfundível
há um mapa da nossa existência
e nele as rotas possíveis dos ventos e os traços impossíveis das travessias
o xis que marca o suposto tesouro
a escala das distâncias imensuráveis
os desertos planícies e florestas que se estendem no imaginário
provavelmente
uma âncora feita pedra no lugar de sempre
a segurar o oceano e o céu na lâmina do horizonte
a suster o universo para que ele não colapse nem se propague para lá de nós
e no fim
numa epifania
a memória foi-se revelando
falando comigo e dando-me forma
eu que nem sabia que estava deslembrado por aí