dei por mim
numa noite em que estava sóbrio
a vasculhar velhos cadernos que roubara na véspera
por lá
li umas citações recolhidas pelo anterior proprietário dos ditos cadernos
eram tiradas de um bêbado com quem
pelos vistos
partilhava serões à volta de um interminável carrossel de bebidas
dei por mim a lê-las em voz alta
não existe
a diferença está no depois
quando saltei para a morte
do alto do prédio
o que vi durante a queda
foi a silhueta das janelas passarem por mim numa pressa que desconhecia
depois o chão engoliu-me e eu acordei para lá de mim
soube que te amava quando me lembrei daquele dia
em que fui encontrar-te à porta
pronta para sair de casaco vestido
recordo que endireitei-te a gola e fomos
passei uma existência sentado
durou mais ou menos tempo
mas durou
e fui nesse entretanto
ambiguamente mudando e intercalando estados
como no mundo do infinitamente pequeno
nessas metamorfoses delicadas e subtis
o meu corpo eu e a minha alma
revelou-se bizarro aos olhos dos outros
mas na verdade
os outros é que se deformam e se bestializam
eu sou absolutamente irrepreensível



