quem olha para cima
pode não saber que o céu é mais do que os pequenos recortes que se revelam por entre os prédios
existem fogueiras a arder lá em baixo
em becos em vielas
e esses fogos não velam quixotes sonhadores sob um firmamento inundado de estrelas
antes ocultam fugitivos ou exilados ou ambos
gente que foge de alguém ou gente que foge de outros lugares
ou até mesmo deles próprios
e a seiva noturna do betão
ergue templos até que arranhem as nuvens
nidificam em altura casulos de pequenos mundos fechados
encapsuladores de promessas e anseios
os segredos não chegam sequer a sussurrar
eles perpetuam-se em autofagia
como aquelas manhãs que nunca acabam de nascer
e assim
a cidade não se alastra só para o alto e para fora
ela germina por dentro
cede sob o seu próprio peso
até implodir
como aqueles corpos cósmicos que se engasgam e se desmoronam pelos infinitos
ps - São Paulo, maio 2018, fotografia tirada do Hotel Maksoud
Sem comentários:
Enviar um comentário