dia 30 - anónimos

o cabelo caía-lhe sobre o rosto
afastava-o a descompasso enquanto falava

não é sobre mim
na verdade não é sobre ninguém
mas as pessoas insistem e acreditam
é mais forte do que elas

eu ouvia e deixava-o expor

porque o que vale não é aquilo que se reconhece
mas antes o que é secreto e anónimo e oculto
há mais mundo para lá de cada um
nem tudo é uma manifestação do corpo ou da alma
nem tudo é reflexo

talvez tivesse razão
muitas vezes a presunção de sermos alguém tendia a impor-se
ora abertamente ora de forma velada

escrevo o que já foi ditado há muito
limito-me a encontrar o caminho
e as palavras depois revelam-se como inevitabilidades
mas elas não são minhas nem sobre mim
elas já eram antes de eu sequer pensar em ser alguma coisa

aceitava o que dizia enquanto me afastava numa lembrança
mas ainda assim esforçava-me por parecer presente
jogava nesse limbo
equilibrando-me na corda bamba que separa céu e horizonte

acho que já bebemos demais

provavelmente teria razão
por isso entre a conversa e o que eu lembrava
erguiam-se divindades num dia de chuva
e resignado alguém caminhava para elas

mas essa jornada seria périplo para toda uma vida
e nessas coisas
nem a origem nem o destino importam verdadeiramente

o percurso é o âmago
é onde os assombros acontecem a solidão sufoca ou a comunhão emerge
onde o amor e a desilusão dançam de noite haja lua ou não

quando se calou
quis eu dizer umas coisas
mas já era tarde
e o caminho de regresso era do tamanho de um silêncio

despedimo-nos e cada um foi para seu lado
talvez em busca de um deus igual ou diferente
nunca o saberemos


ps - Jardim Oriental Bacalhôa Buddha Eden, Bombarral, fevereiro 2013

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