dia 55 - arautos

quando finalmente me abordou
vinha preparado para explicar tudo

eu sei que no mundo
transitam mensageiros de realidades ocultas
arautos de um universo que se nos escapa

lembro-me de uma mulher que nunca me amou
mas que não deixava de me afagar o cabelo com ternura
de contar o tempo dos ritmos quando eu dançava pela madrugada fora
de fazer de conta que lia o que eu escrevia
lembro-me também de uma escultura junto à foz de um rio
de um anjo em bronze que parecia triste
e que no entanto
oferecia conforto aos que por ele passavam
recordo os primeiros corvos que vi nos jardins do norte da europa
pedaços de um luto que eu desconhecia
criaturas transcendentes que de tão cheias de si
pareciam ignorar tudo o resto e percorriam o tempo por entre grunhidos e soluços

eu ouvia tudo isto de uma só vez
dominado pelo monólogo repentino
apanhado desprevenido no meu pasmo rotineiro

no fim
calou-se
e os dois olhámos para o que sobrava
que era ao mesmo tempo
uma inconsequência e uma transmutação


ps - Londres, junho 2025

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