não tanto sobre o fim
nem tanto sobre o início
mas antes sobre o instante entre os dois limites
não sabe de onde ela viera
nem como ali chegara
mas de novo
esses dois recortes não são o mais importante
ou pelo menos não são a razão da intriga
interessa-lhe sim o ponto intermédio
de quando artista e modelo se cruzaram
e aí se questiona
se o lenço tinha origem
se o cântaro levava água vinho ou azeite
se as cerejas estavam maduras
se eram cerejas
se os traços do rosto falavam de sol de sal e de fenícios
se o retrato demorara uma tarde
ou duas
ou uma paixão passageira
ou um para sempre
se quem o pintou estava nervoso
se atrás de um outro se
um segredo qualquer sussurrava
ou um mistério ou uma promessa
tudo isso ele cisma
tudo isso ele considera
e conclui
que desconhecido o início
indagado o intermeio
resta afinal o fim
numa viela num mercado numa ilha
ela anónima
o artista ignoto
um rosto entre o descanso e o sereno
um olhar a ser olhar
os lábios cheios e reservados
uma fruta momentaneamente adiada
e um retrato a viajar em devaneio
a desaguar em versos
a rumar em leitura
a ecoar em lembrança
a calar em olvido
Sem comentários:
Enviar um comentário