quando nos encontrámos por acaso
ele segurava uma pasta e o rosto parecia ansioso
uma coisa poderia ter que ver com a outra
pensei
ele estava a pagar um café
e eu entrava para pagar o depósito que acabara de encher
cumprimentou-me e pediu-me para ir ter lá fora
queria ver o céu fumar um cigarro e explicar-me umas coisas
olha
ainda bem que te apanho
ali ao fundo
por detrás daquele muro com aquelas caras e cores
estás a ver
eu via enquanto me desviava do fumo
ali atrás nem te digo
eles tiraram-me o que puderam
meses a fio
mas hoje
hoje pirei-me
meti dentro desta pasta o que tinha escrito e fugi
a pasta era de couro velho
tinha umas rugas que se alastravam da pega às abas e pareciam sina de uma mão antiga
quais desfiladeiros de marte captados dos altos das sondas
emaranhados labirínticos de uma pele desidratada pelo tempo e intempéries
vou fugir sabes
tenho o que preciso aqui
eles virão atrás de mim mas eu tenho o que preciso
o muro ao longe impávido
enquanto linhas de alta tensão fatiavam pedaços de um céu desinspirado
quando nos despedimos vi-o a ir na direção errada
voltava afinal de onde viera
a pasta na mão no compasso do caminhar
e ele decidido como um fatalidade
chamei-o
e ao voltar-se vi-lhe as lágrimas a caírem pela face
abanou a cabeça num não tímido
e retomou o caminho
ps - Nacional 14, Leça do Balio, fevereiro 2026
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