dia 54 - como um sol

o quimono era preto
fundia-se com a noite
a vénia que desenhou
cortou a sombra num vai-e-vem preciso
disse

em tempos encontrei um haiku
descrevia um excesso de luar
que era reflexo de lâmpada numa taça de chá

sentou-se no banco que dava de frente para o quintal
olhou como quem despeja o olhar para lá das coisas
e até interromper o silêncio
parecia que o tempo não passava
como se a contemplação 
num esforço contido
segurasse a grande vaga inevitável

mais à frente
voltou a falar

a flor
nasce
como um sol
no jardim de inverno

e então fez-se zénite
na declamação serena dos versos
as pétalas incandescentes a delinear a estrela por entre a madrugada


ps - Vila Nova de Gaia - março 2018

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