dia 60 - do alto

afundam-se
em lugares quietos

ora cobrem-se de seda e cetim
ora ficam nus à procura de um deus ou outro

no espaço exíguo de uma vida
há ainda assim muito caminho a desbravar
muitos silêncios por engolir e segredos por desfazer

eles são discretos
mas os corpos não deixam de ter a sede dos amantes
os olhos não deixam de seguir os voos nervosos das moscas no verão

a contrição a que se prestam
nasceu não se sabe bem onde
e hoje é órfã
por isso poucos a abandonam

eles vão seguindo um norte só deles
vagando pelas estações como alguns pássaros

imbuídos numa missão que desconheço
mas que intuo ao vê-los juntarem-se na orla das praias do outono
e nas colinas cujas estradas serpenteiam por curvas e contracurvas

no fim
eu sigo-os ao longe
daqui
do alto de umas palavras
da torre de uns versos
e do aborrecimento de uma espera

e muito provavelmente
por tão longe deles estar
o que escrevi não será bem verdade

mas também
quando é que o que se escreve
alguma vez é verdade

ou mentira


ps - vista da Quinta dos Malvedos para a margem sul do Rio do Douro, novembro 2025

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