banhava o canto do bar onde ele se afundava todas as noites
rabiscava mapas e olhava pela janela nos entretantos
à hora do fecho recolhia os esboços e guardava-os numa pasta velha
saía pela porta depois de vestir uma gabardine desgastada por invernos passados
atravessava a rua e desaparecia na esquina
eu ficava um pouco mais
aproveitava a tolerância do dono
bebia um último copo até as luzes se apagarem ficando somente as de presença a entediarem-se
derramando-se pela vitrine noite dentro
sendo o último era também o primeiro a entrar na madrugada deserta
e o meu caminho ia por outra rua e por outra esquina
sem rota o meu norte confundia-se na leve embriaguez
e rendia-se à corrente mareada de uma oscilação velada
perdia-me até não haver mais mundo
provavelmente escapara para lá dos tais mapas do outro
e aparecia já o dia nascera por entre as vielas
amanhã
quando o reencontrasse banhado pela luz azulada da televisão
talvez lhe dissesse com uma voz rouca
apontando aos rabiscos
olha
há mais por mapear do que isso
o domínio estende-se mais além
e há vastos recantos silenciosos por desbravar
não creio que acabes um dia esses mapas
há coisas que nunca acabam
não sei que me diria
se calhar nada disso era novo
quem sabe se já não conhecia esse meio segredo
e mapear fosse a loucura que lhe calhou no sorteio das obsessões
e provavelmente
se coisas há que nunca acabam
é porque há gente como ele
obstinadas num delírio
ps - Marselha, França, abril 2017
Sem comentários:
Enviar um comentário