dia 27 - mapeador

a luz azulada de uma televisão ligada desde sempre
banhava o canto do bar onde ele se afundava todas as noites

rabiscava mapas e olhava pela janela nos entretantos

à hora do fecho recolhia os esboços e guardava-os numa pasta velha
saía pela porta depois de vestir uma gabardine desgastada por invernos passados
atravessava a rua e desaparecia na esquina

eu ficava um pouco mais
aproveitava a tolerância do dono
bebia um último copo até as luzes se apagarem ficando somente as de presença a entediarem-se
derramando-se pela vitrine noite dentro

sendo o último era também o primeiro a entrar na madrugada deserta
e o meu caminho ia por outra rua e por outra esquina

sem rota o meu norte confundia-se na leve embriaguez
e rendia-se à corrente mareada de uma oscilação velada
perdia-me até não haver mais mundo
provavelmente escapara para lá dos tais mapas do outro
e aparecia já o dia nascera por entre as vielas

amanhã
quando o reencontrasse banhado pela luz azulada da televisão
talvez lhe dissesse com uma voz rouca
apontando aos rabiscos

olha
há mais por mapear do que isso
o domínio estende-se mais além
e há vastos recantos silenciosos por desbravar
não creio que acabes um dia esses mapas
há coisas que nunca acabam

não sei que me diria
se calhar nada disso era novo
quem sabe se já não conhecia esse meio segredo
e mapear fosse a loucura que lhe calhou no sorteio das obsessões

e provavelmente
se coisas há que nunca acabam
é porque há gente como ele
obstinadas num delírio


ps - Marselha, França, abril 2017

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