dia 28 - embalo

carregou o velho até às traseiras da casa onde o jardim não tinha fim
estendendo-se até ao horizonte numa planície imensa para lá da qual o sol caía todos os dias

pousou-o para lá de um carvalho encarquilhado
numa clareira de relva sem as flores que à volta iam espreitando um pouco por todo o lado

lembrou-se do que aprendera
de como um enterro era também sepultar os pecados dos mortos impenitentes
cobrindo não só o corpo e o rosto apagado
mas também as culpas e os sonhos desfeitos

haveria que dizer umas palavras mais logo
e desenhar uma vénia final sobre a campa

depois sim
o tempo poderia derramar-se de novo
até apagar os nomes dos mortos no esquecimento universal

não lhe afligia essa desmemória futura
que toda a vida navegara pelo mar de outras deslembranças já ele sabia

que as marés que nos vão calhando
são o embalo ancestral da humanidade
também ele já descobrira há muito
quando notou que os ocasos se repetiam a cada dia


ps - Parque Natural da Serra de São Mamede, Portalegre, agosto 2020

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