dia 38 - renascimento

sempre que voltava de um dos seus exílios
trazia uma história

quando não estava
a ausência era anónima e passava por entre as roldanas da rotina

se um dia não regressasse poucos dariam conta
ainda que esses poucos a conta que dariam seria bastante

ele falava de como se deportava e enclausurava
de como passava as noites em pesquisa
num vasculhar por entre as sombras
fossem as reais ou oníricas
em busca de assombros ou indignações ou desistências

provavelmente esses delírios tinham ajuda
sempre fraquejou perante os vícios
sobretudos aqueles que o lançavam em queda livre
não fosse ele próprio um devoto de vertigens
e não era incomum que se perdesse para lá dele mesmo

e desta vez
ao dirigir-se aos que o ouviam
falou com a voz de quem passara pelo abismo do desassossego

amigos
não vos conto por onde andei
isso fica para outra vez
mas conto-vos onde acabei

e após se recompor na cadeira
continuou

vi um céu no fim de um tormento
recortado por uma trama de nuvens e luz
balançava ao sabor da manhã e corria leve

eu pensei
acabei de nascer

não disse mais nada
exausto recolheu-se
foi a última vez que o vimos


ps - Gerês, setembro 2017

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