sentia o vento passar
regressara a um lugar de onde tinha fugido há mil vidas
lembrava-se bem do cheiro a sal e a pedra
o que vivera entre a fuga e o retorno
era vago mas denso
como um sonho no momento em que se acorda
onde cada piscar de olhos o atira ainda mais para o esquecimento
e então a noite inteira passa num instante apenas
mas que ainda assim carrega toda uma existência
de volta
havia um excesso de tudo nessa imensidão
e estendia-se agora a seus pés vindo do mais fundo que o fundo
a terra
feita de sangue coalhado em basalto
e de uma cor sem cor
nem céu nem mar lhe cabiam nos olhos
prolongavam-se para lá do possível
perduravam no campo da alma e do espírito
este lugar é um bicho em si mesmo
pulsa e expande-se até descaber
ela haveria de partir outra vez
de repetir esse exílio
de esvaziar o olhar de firmamento e ondas
de insistir num escape para que faça sentido um regresso
não havia como desprender-se dessa órbita pela qual transita
de revolução em revolução
como os astros e os átomos
ditando marés e estados
ela
ora longe
ora perto
sentia o vento passar
ps - Ilha do Pico, Açores, outubro 2020

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