dia 33 - órbita

sentia o vento passar

regressara a um lugar de onde tinha fugido há mil vidas

lembrava-se bem do cheiro a sal e a pedra

o que vivera entre a fuga e o retorno
era vago mas denso
como um sonho no momento em que se acorda
onde cada piscar de olhos o atira ainda mais para o esquecimento
e então a noite inteira passa num instante apenas
mas que ainda assim carrega toda uma existência

de volta
havia um excesso de tudo nessa imensidão 
e estendia-se agora a seus pés vindo do mais fundo que o fundo
a terra
feita de sangue coalhado em basalto
e de uma cor sem cor

nem céu nem mar lhe cabiam nos olhos
prolongavam-se para lá do possível
perduravam no campo da alma e do espírito 

este lugar é um bicho em si mesmo
pulsa e expande-se até descaber

ela haveria de partir outra vez
de repetir esse exílio
de esvaziar o olhar de firmamento e ondas
de insistir num escape para que faça sentido um regresso

não havia como desprender-se dessa órbita pela qual transita
de revolução em revolução
como os astros e os átomos
ditando marés e estados

ela
ora longe
ora perto
sentia o vento passar


ps - Ilha do Pico, Açores, outubro 2020

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