dia 148 - saldo

as mentiras sofrem de hemorragias fatais
mais cedo ou mais tarde acabam por morrer

as nódoas que deixam para trás são difíceis de sair
o sangue que se esvai é de um outro fluido
entranha-se mais fundo mais cabalmente

já as verdades não morrem
mas são frágeis e facilmente encobertas
podem passar uma existência sem se revelarem
e mesmo quando se declaram sofrem golpes de ignorância e opressão

há gente que confunde as coisas
que imagina que os deuses nos esperam junto às portas da morte
que passam o tempo da nossa vida a espiar-nos
a somar as mentiras e as verdades para no fim nos apresentarem a conta 

quem paga e com o quê

ninguém sabe 

talvez com palavras
com letras soletradas uma a uma até se esgotar um dicionário
ou
já que na morte deve sobrar eternidade
até se esgotar também uma gramática inteira 
até mesmo quem sabe
desvelar a semântica
desenrolá-la por completo
esticando-a num fio que vá de um confim ao outro disto tudo

talvez seja um disparate

no final se calhar não está lá ninguém
e que estivesse
o fim é o fim
e se não for
então
é só uma mentira mais
inevitavelmente sangrará até não sobrar 

poderá ser isso afinal 

lá mais à frente
depois de todas as contas
depois de todos os desassossegos e assombros
depois de todas as inutilidades 
depois de tudo e depois de nada 

pode ser que esteja algo que não sobre


Ilha do Pico, junho de 2024

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