dia 137 - o poeta e eu

claramente
as vírgulas e a pontuação em geral eram algo que ele descartava
bem como as letras maiúsculas salvo raras exceções

acreditava no alcance do fôlego para ditar a quebra do poema
e quando essa crença era posta à prova assim que os versos se aventuravam para lá do razoável
limitava-se a encolher os ombros e a dizer

é voltar atrás
inspirar até mesmo antes de tossir
e lançar-se de novo pelas palavras
não há outra forma

sabia também que para escrever era preciso estar-se só

a poesia dele pelo menos
não nascia sem silêncio
ou uma certa forma de se estar só e uma certa forma de silêncio

temia não saber explicar essa parte
vivia na contradição destes esclarecimentos e na liberdade inata de cada palavra
que no fundo nem lhe pertenciam
e
que uma vez lançadas pelos horizontes poéticos
acabavam por pertencer a qualquer pessoa que desse com elas

era isto que lhe ocupava o pensamento quando me sentei ao lado

fui vendo como lhe roía a alma essa impossibilidade
de querer fundamentar uma criação que afinal não o era
que na verdade era ele que ia nascendo de todas as vezes que escrevia
e nesses partos literários deparava-se com ter de reaprender tudo de novo

eu lá ia acenando
fingindo entender quando ainda mais perdido estava

ele apercebia-se do meu frete
mas aceitava-o porque no fundo nem ele se compreendia
e é sempre melhor serem dois a estarem perdidos do que apenas um

ao menos
perante um impasse
podiam somar as hesitações de ambos até elas darem a volta nesse cúmulo
e quem sabe se no outro lado disso não se encontra uma resolução

o tempo foi passando
ele deixou de falar de como porquê e para que é que escrevia
e eu não precisei de fingir que
por um lado
percebia do assunto
por outro
me interessavam essas coisas

apesar de sentados lado a lado
cada um foi pelo seu caminho


Sem título, obra de Dado (Miodrag Djuric), coleção Treger/Saint Silvestre, Centro de Arte Oliva, São João da Madeira, abril de 2018

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