não sabia bem o que estava por trás
a própria distância ganhava forma e contorno
dando azo a premonições incertas
que tanto se erguiam como prova de tudo como prova de nada
e na dúvida que se instalava silenciosamente
a imensidão de possibilidades era tal
que nem nascendo mil vezes chegaria para lhes dar a volta
o instante pedia uma escolha impossível
calar ou falar até esgotar as palavras
a primeira levava-o para um fundo tão fundo que nem um eco conseguiria escapar
para a segunda não havia pulmão que chegasse nem língua que não se consumisse até ser cinza e pó
restava-lhe adiar
enquanto não optasse pelo menos o mundo ficaria em suspenso
aí permaneceu
à deriva num mar que tanto tinha de indecisão como de medo
e tudo isso era compreensível
mas também insustentável
mais cedo ou mais tarde
já nem escolha haveria
e das duas uma
ou ficava sem voz
ou ficava sem silêncio
um desses caminhos engoliria o outro de um só trago
depois
sobrando um deles
fosse qual fosse
seria inevitável
até lá
agarrou-se à espera
como a uma jangada em alto mar
ia calando e falando
alternadamente
a confirmar que ambos eram possíveis ainda e o fim não chegara
a escolha sobrevivia como podia
mas até as demoras expiram
e um dos destinos cumpriu-se
dele ou do que lhe calhou no acaso não se soube mais nada
sobraram deduções disfarçadas de rumores
que era sombra sem luz que a explicasse
que era verbo sem fim que o conjugasse
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